• Silverio Karwowski

Todo psicólogo precisa de psicoterapia?

Se você é estudante de psicologia ou psicólogo, certamente já se deparou com a pergunta sobre a necessidade do psicólogo (e estudante) fazer ou não psicoterapia, não é mesmo? Mas olha, fazer uma afirmação com a palavra “todo” ou “todos”, é como acreditar que todas as aves do mundo sejam brancas, apenas por se ter vistos várias delas com a cor branca... Então, precisamos refletir!


Entender as diferenças e conviver com elas: um desafio de todos, profissão do psicólogo.

Embora aparentemente simples, pois muitos leigos respondem de imediato a essa pergunta com a afirmação “sim, o psicólogo precisa de psicoterapia”, essa é uma questão polêmica, pois existem vários psicólogos que defendem exatamente o contrário: “não. Nem todo psicólogo precisa fazer psicoterapia”.


Parece muito simples que pessoas comprometidas com e dedicadas ao cuidado psicológico do ser humano precisem se tratar para exercer sua profissão. No entanto, muitos psicólogos entendem que a formação acadêmica, ou seja, a faculdade é suficiente preparação para atuação profissional, principalmente porque as áreas de trabalho do psicólogo são diversas e envolvem ações em organizações, em escolas, em comunidades, no setor jurídico e diversos outros, para além da clínica. Muitas dessas áreas não implicariam na necessidade do psicólogo ter se submetido à psicoterapia.


Então vejamos algumas perspectivas sobre essa polêmica...


A psicoterapia, muitas vezes chamada apenas de terapia, é um processo que permite à pessoa atingir maior autonomia em relação aos seus comportamentos e emoções, incluindo a resolução de conflitos específicos relativos às suas relações interpessoais, interesses divergentes e disfunções de personalidade.

Para que serve a psicoterapia

A psicoterapia, muitas vezes chamada apenas de terapia, é um processo que permite à pessoa atingir maior autonomia em relação aos seus comportamentos e emoções, incluindo a resolução de conflitos específicos relativos às suas relações interpessoais, interesses divergentes e disfunções de personalidade. Isso implica no auxílio à pessoa que queira ou precise realizar mudanças psicológicas, com ou sem indicação expressa para a psicoterapia, quando por exemplo, a pessoa está interessada apenas na promoção de autoconhecimento e aprimoramento pessoal. Sendo assim, posso afirmar que existem pessoas para as quais existe indicação de psicoterapia, ou seja, precisam do tratamento para diminuir o estado de sofrimento em que se encontram ou para evitar o agravamento desse estado; e existem pessoas para as quais a psicoterapia é desejável, tendo mais valor para o crescimento pessoal e melhoria em suas relações.


Indicação para a psicoterapia

As pessoas cujo estado revelam ter indicação para a psicoterapia são aquelas com algum comprometimento mental tais como a depressão, a psicose, crises de ansiedade, humor irritadiço ou rapidamente alternado entre raiva e indiferença, apenas para citar os mais conhecidos. Nesses casos, a avaliação de um psicólogo é extremamente importante para o entendimento do tipo de comprometimento em questão e da indicação para a psicoterapia e ainda avaliação psiquiátrica para uso medicamentoso, se necessário.

Os estudos de psicologia são suficientes para se constatar que, se essas pessoas não recebem o tratamento adequado, há um agravamento e piora no caso, com possibilidade da ocorrência de agravantes tais como o suicídio, a reclusão social ou agressão, dirigida a outras pessoas ou a si mesma.


Psicoterapia desejável

Pessoas para quem a psicoterapia é desejável são aquelas que não possuem comprometimento mental grave, mas para quem o processo de psicoterapia implica em maior autoconhecimento, suficiente para que suas decisões e escolhas impliquem em resultados mais satisfatórios em suas vidas, auxiliando melhor a atingir seus objetivos pessoais. Essas pessoas passam por problemas que fazem parte do quotidiano de qualquer ser humano, enfrentando perdas, frustrações, desilusões e decepções, escolhas conflitantes, dificuldades de desenvolvimento, sem que haja nenhum indício de anormalidade ou comprometimento mental. A psicoterapia, como já dito, contribui para o desenvolvimento de melhores estratégias de enfrentamento dessas condições existenciais.

Não tem sido simples e nem fácil para as pessoas lidarem com tais condições que muitas vezes assolam e confundem, fazendo parecer que condições sociais são problemas exclusivamente individuais, muitas vezes ocasionando sentimentos de culpa pelas dificuldades e por sentir-se em conflito. Essas ocorrências, por si, tornam-se suficientes para a busca de ajuda da psicoterapia.

Soma-se a essas dificuldades, chamadas aqui como de ordem individual, as condições sociais que, por seu dinamismo e complexidade, podem ser a gênese de diversos conflitos e dificuldades geradoras de sofrimento psíquico, como por exemplo mudanças na estrutura familiar, individualismo crescente, exigências desmedidas de sucesso, medição materialista do valor social, desvalorização do idoso e da mulher, dentre tantas outras de complexidade e importância semelhantes.


Não tem sido simples e nem fácil para as pessoas lidarem com tais condições que muitas vezes assolam e confundem, fazendo parecer que condições sociais são problemas exclusivamente individuais, muitas vezes ocasionando sentimentos de culpa pelas dificuldades e por sentir-se em conflito. Essas ocorrências, por si, tornam-se suficientes para a busca de ajuda da psicoterapia.


Devo acrescentar que não existe, do ponto de vista da resolução dos dramas humanos, uma resolução definitiva. Qualquer pessoa poderá obter melhorias em relação a um ou mais problemas específicos e até mesmo em relação a um modo de ser, modificando-o profundamente. Mas sempre é bom lembrar que essas resoluções permanecerão como o próprio ser humano se constitui: inacabadas e em devir, contribuindo para novas descobertas e novas construções ao longo de toda uma vida.


E o profissional de psicologia?

O profissional de psicologia é um ser humano, do ponto de vista existencial, igual a todo e qualquer outro ser humano. Está sujeito a todos os dissabores possíveis e também ao adoecimento mental, tendo também que se tratar caso esteja comprometido mentalmente ou, caso não esteja comprometido, podendo optar pelo processo para melhoria de si mesmo e de suas relações pessoais.

Junto a isso, posso me referir ao psicólogo que irá, ele mesmo, trabalhar como psicoterapeuta ou ainda em áreas com efeitos psicoterápicos auxiliando no processo de melhora dos pacientes mentalmente doentes, sobre a necessidade de ele submeter-se ao processo de psicoterapia, devido aos seguintes motivos: a) técnico - aprimoramento de métodos e técnicas na clínica; b) gestão da carreira – entendimento sobre a influência positiva de sua psicoterapia no consultório; c) proteção pessoal – aprendizagem da distinção e suficiente separação dos seus conteúdos psíquicos dos de seus pacientes; d) compromisso ético – busca de melhoria do ser humano em geral, implicando seu crescimento como demonstração dessa busca.


Motivo técnico

Posso então dizer que, para o clínico, há um motivo técnico justificando a necessidade de psicoterapia, suficiente para entender que sua competência estará comprometida, caso não atenda a essa necessidade.


Isso significa que as chamadas teorias e técnicas de psicoterapia são aprendidas na faculdade, mas são efetivadas nas formações posteriores, quer se trate de pós-graduação, quer se trate de formação livre (não conhece a diferença? Clique aqui e veja mais).

Ao mesmo tempo, as técnicas serão efetivamente assimiladas através da experiência a que ele mesmo irá se submeter, atestando sua eficácia, importância e adequação a na lida com os diversos dramas humanos. É através desse processo que o psicoterapeuta obtém o conhecimento aprofundado do processo que ele mesmo irá praticar, podendo falar com propriedade se e quando perguntado sobre isso.


Cuidado com a carreira

De forma correlata, o psicólogo que se submete à psicoterapia promove uma melhoria indireta, mas importante, do seu trabalho como clínico, trazendo benefícios para o sucesso do seu consultório, diferentemente daquele profissional que não se submete ao processo, pois estará mais apto ao crescimento em sua clínica.

Embora seja um ganho indireto, os efeitos em termos da relativa resolução de seus problemas pessoais auxiliam o psicoterapeuta no relacionamento com seus pacientes, contribuindo para a evitação de abandonos ou para a indicação de outros pacientes, o que contribui, por conseguinte, para a manutenção dessa clientela.


Proteção pessoal

Falar em proteção pessoal faz parecer que os pacientes de alguma forma ameaçam o psicoterapeuta o que não é verdade. O sentido de proteção se refere bem mais à evitação de uma intersecção entre problemas específicos e importantes do psicoterapeuta com os de mesma natureza de seu paciente.


Quando isso acontece, na maioria das vezes de forma inconsciente pois não é próprio do ser humano a onisciência, facilmente existe confusão por parte do psicoterapeuta e perda da habilidade interventiva, propiciando a emergência de uma série de sentimentos mais propícios a manutenção e agravamento do adoecimento (iatrogênicos) que efetivamente facilitadores da diminuição do sofrimento do paciente.


Também é comum que esse entrecruzamento não identificado traga sofrimento ao psicoterapeuta, seja relacionado à revivência de eventos de sua vida pessoal, seja referente à própria relação terapêutica que tem, dentre outras, a missão de promover a melhoria do paciente.


Motivo ético

Mais que uma questão técnica ou profissional, o clínico precisa ter, antes de mais nada, um compromisso ético e moral com o crescimento humano, pois isso integra a escolha de sua profissão. O entendimento de ser a psicoterapia um método por excelência para o crescimento humano permite, a qualquer pessoa, a adesão ao processo de forma livre, e também permite ao psicólogo a defesa do uso das incontáveis formas de aprimoramento humano, mas sempre afirmando a eficácia da psicoterapia como uma delas.


A ética, é dos princípios fundamentais do ser humano que se compromete com o bem estar humano, mas não um bem-estar qualquer e sim, um bem-estar que fará bem a todo e qualquer ser humano. Sendo assim, apesar de termos diversas doutrinas éticas, toda ética entende ser fundamental o aprimoramento do ser humano para a obtenção de uma espécie de plenitude, variando, contudo, o modo como cada doutrina afirma o caminho para a chegada dessa plenitude.


Havendo então concordância com esses elementos acima (expressos principalmente no Código de Ética dos Psicólogos) parece inegável que a adesão à psicoterapia seja um procedimento necessário para os psicólogos, por uma condição de princípios e compromisso com o crescimento e desenvolvimento humano, mas também por respeito à profissão que ele mesmo escolheu.


As objeções para a psicoterapia

A despeito das condições de indicação e de ser desejável, a psicoterapia para psicólogos ainda encontra objeções, consideradas como impedimentos para se iniciar tal processo. As objeções se caracterizam como argumentos contra alguma tese, enquanto o impedimento se apresenta como um obstáculo real para se realizar alguma coisa.


A despeito dos impedimentos específicos ligados a cada pessoa, podemos falar em pelo menos duas objeções, comumente apontadas como impedimentos e que são os mesmos que os psicoterapeutas ouvem de seus clientes leigos, a saber, a falta de tempo e de dinheiro.


A objeção do tempo

Razão da manutenção da modernidade, o tempo possui emaranhos e produção de diversos sentidos, sendo quase instantaneamente aceito como impedimento, por quase qualquer pessoa. No entanto, o psicoterapeuta experiente sabe que as pessoas mais ocupadas são aquelas que mais facilmente encontram horário para psicoterapia, considerando inclusive que, em 40 horas semanais, a dedicação de uma hora será pouco significativa em termos de ocupação e bastante significativa em termos dos ganhos pessoais.


A objeção econômica

A segunda objeção, a falta de dinheiro, coloca em foco não exatamente a carência de recursos, mas a predileção do futuro cliente. Pensar que não se tem dinheiro para a psicoterapia exclui todas as clínicas sociais e clínicas escolas que oferecem o serviço de forma gratuita ou ainda a preços bastante baixos, de acordo com a renda do cliente. Nesse caso, o que entra em questão é o sentimento de indignação do cliente, por estra frequentando uma clínica social, evocando as vezes sentimentos de vergonha que precisam ser enfrentados e superados.


Mais que o processo psicoterápico, o foco nesse caso não é efetivamente a condição econômica, mas a autoimagem do psicólogo e os desdobramentos para outros significados e sentido em sua vida.


Conclusão

Como pude demonstrar acima, a psicoterapia para psicólogos pode ser necessária, tendo indicação como para qualquer ser humano; pode ser desejável, caso não exerça atividades ligadas à clínica, tendo ainda motivos éticos para essa adesão, todo e qualquer psicólogo. As objeções não são impedimentos efetivos, precisando ser enfrentadas e superadas em todas as suas dimensões. O aspecto mais importante não diz respeito à necessidade (todo psicólogo precisa de psicoterapia) mas à possibilidade, sendo desejável e eticamente recomendável a psicoterapia para o psicólogo.

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