Quando a palavra não basta: por que a clínica contemporânea precisa ampliar suas formas de escuta
- IGC - Instituto Gestalt

- há 2 dias
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Quando a palavra não basta
Há uma pergunta que acompanha silenciosamente muitos psicoterapeutas contemporâneos:
O que fazer quando o paciente não consegue dizer aquilo que vive?
Não se trata de falta de inteligência, resistência ou ausência de vínculo terapêutico. Em muitos casos, a própria experiência ainda não encontrou uma forma de ser narrada. O sofrimento existe, mas permanece difuso; manifesta-se por meio do corpo, das emoções, das repetições, dos silêncios ou de uma sensação persistente de vazio que parece escapar às palavras.
Tal realidade não constitui uma exceção. Ela se tornou uma característica frequente da clínica contemporânea. Quadros relacionados ao trauma, à ansiedade, às experiências dissociativas, às dificuldades de simbolização e às formas crônicas de sofrimento frequentemente desafiam modelos de atendimento centrados exclusivamente na linguagem verbal.
Essa constatação não diminui a importância da palavra. Ao contrário, convida o psicoterapeuta a ampliar sua compreensão acerca dos diferentes modos pelos quais a experiência humana se expressa.

A clínica mudou — e os pacientes também
Ao longo do século XX, grande parte da psicoterapia foi construída em torno da elaboração verbal da experiência. Falar sobre si, recordar acontecimentos, construir narrativas e produzir significados continuam sendo processos fundamentais.
Entretanto, a clínica atual apresenta desafios que frequentemente escapam a essa lógica.
Muitos pacientes chegam ao consultório dizendo: "Não sei explicar o que estou sentindo."
Outros afirmam: "Minha cabeça entende, mas meu corpo continua reagindo."
Há ainda aqueles que conseguem descrever minuciosamente suas histórias, mas permanecem incapazes de transformar a experiência vivida em algo efetivamente integrado.
Esses relatos revelam um aspecto importante: compreender intelectualmente um sofrimento não significa necessariamente elaborá-lo.
Nesse sentido, a psicoterapia contemporânea vem reconhecendo a necessidade de integrar diferentes formas de acesso à experiência humana, sem reduzir o trabalho clínico à interpretação racional dos acontecimentos.
O corpo também é linguagem
A fenomenologia trouxe contribuições decisivas para essa mudança de perspectiva.
Maurice Merleau-Ponty (1945/2018) propôs que não somos consciências isoladas que habitam um corpo; somos seres corporificados, cuja relação com o mundo acontece primordialmente por meio da experiência vivida.
Como afirma o filósofo: "O corpo é nosso meio geral de ter um mundo." (MERLEAU-PONTY, 1945/2018).
Essa afirmação desloca profundamente a compreensão clínica. O sofrimento não aparece apenas nas palavras. Ele também se manifesta na postura, na respiração, no ritmo da fala, na dificuldade de contato, na forma de ocupar o espaço, nos gestos interrompidos e nas expressões que antecedem qualquer narrativa organizada.
Escutar essas dimensões não significa abandonar a palavra. Significa reconhecer que ela constitui apenas uma das formas possíveis de expressão da experiência.

Quando simbolizar se torna difícil
Donald Winnicott (1971/1975) mostrou que a criatividade não representa apenas uma habilidade artística. Ela constitui uma forma fundamental de estar vivo e de estabelecer relações com o mundo.
Da mesma maneira, autores como Edith Kramer (1971) e Shaun McNiff (1992) demonstraram que processos criativos podem favorecer a elaboração emocional justamente porque permitem que experiências ainda não organizadas encontrem formas simbólicas de existência.
Nem toda experiência nasce pronta para ser contada. Algumas precisam, inicialmente, ser desenhadas, outras precisam ser modeladas, movimentadas, representadas ou construídas simbolicamente antes que possam ser narradas. É nesse contexto que os recursos expressivos adquirem relevância clínica. Eles não substituem a palavra; frequentemente, ajudam a torná-la possível.
Arteterapia: muito além da produção artística
Apesar do crescimento da área, ainda persistem diversos equívocos sobre a Arteterapia.
Ela não consiste em ensinar pintura, desenvolver habilidades artísticas ou interpretar desenhos segundo significados universais. Na clínica, o foco não está na qualidade estética da produção, mas no processo vivido pelo participante.
O recurso expressivo funciona como uma linguagem complementar que amplia as possibilidades de contato, percepção, simbolização e elaboração da experiência.
Por isso, a Arteterapia pode integrar diferentes abordagens psicoterápicas, desde que utilizada com fundamentação teórica, objetivos clínicos claros e adequada formação profissional.
Na Gestalt-terapia, por exemplo, recursos expressivos frequentemente favorecem o aumento da awareness, a integração de polaridades, a ampliação da consciência corporal e o fortalecimento do contato com a experiência presente.

A clínica do século XXI exige uma escuta ampliada
Vivemos um tempo marcado por aceleração, excesso de informação, fragmentação das experiências e crescente sofrimento psíquico. Nesse cenário, talvez a principal pergunta não seja se devemos abandonar a palavra. A questão é outra:
Estamos preparados para escutar aquilo que ainda não conseguiu se transformar em linguagem?
Ampliar a escuta clínica significa reconhecer que corpo, gesto, silêncio, imagem, movimento e criação também participam da construção da experiência humana.
A palavra continua sendo indispensável.
Mas, em muitos momentos, ela deixa de ser o ponto de partida e passa a ser uma conquista do próprio processo terapêutico.
Convite
Essas questões estarão no centro do evento promovido pelo Instituto Gestalt do Ceará:
Arteterapia e clínica contemporânea: expressão, corpo e experiência para além da palavra
📅 26 de agosto de 2026
🕖 19h às 22h
💻 Evento on-line
Se você atua na clínica psicológica, na saúde mental, na educação ou deseja compreender melhor as possibilidades terapêuticas dos recursos expressivos, este encontro foi preparado para ampliar o diálogo entre teoria, prática clínica e experiência.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é Arteterapia?
A Arteterapia é uma prática que utiliza recursos expressivos — como desenho, pintura, colagem, modelagem, escrita, fotografia e outras linguagens — para favorecer processos de expressão, simbolização e elaboração da experiência em contextos terapêuticos.
É preciso saber desenhar para participar de atividades de Arteterapia?
Não. O objetivo não é produzir obras de arte, mas utilizar o processo criativo como recurso de expressão e reflexão.
Arteterapia substitui a psicoterapia?
Não. Ela pode constituir uma modalidade específica de intervenção ou integrar diferentes abordagens psicoterápicas, sempre de acordo com a formação do profissional e os objetivos clínicos.
Em quais situações recursos expressivos podem ser úteis?
Eles podem favorecer o trabalho clínico em diferentes contextos, como dificuldades de simbolização, sofrimento relacionado a traumas, ansiedade, luto, experiências corporais complexas, processos de desenvolvimento pessoal e situações em que a linguagem verbal se mostra insuficiente para expressar a experiência.
Psicólogos podem utilizar recursos expressivos na clínica?
Sim, desde que o façam com fundamentação técnica, ética e coerência com sua abordagem clínica e sua formação.
Referências
KRAMER, Edith. Art as Therapy with Children. New York: Schocken Books, 1971.
McNIFF, Shaun. Art as Medicine: Creating a Therapy of the Imagination. Boston: Shambhala, 1992.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2018. (Obra original publicada em 1945).
OAKLANDER, Violet. Descobrindo crianças: a abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. São Paulo: Summus, 1980.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. (Obra original publicada em 1971).
YONTEF, Gary M.; JACOBS, Lynn. Gestalt Therapy. In: CORSINI, Raymond; WEDDING, Danny (org.). Current Psychotherapies. 10. ed. Boston: Cengage Learning, 2013.



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