A dor, a arteterapia e a experiência de existir
“Temos a arte para não morrer
da verdade”
(Nietzsche)

Há experiências tão cotidianas que passamos a não notá-las ou reconhecer sua função na elaboração do existir. Em alguns momentos uma música parece dizer aquilo que ainda não conseguimos formular, uma cena de filme nos chega de forma inesperada, uma imagem inaugura um silêncio e nos faz permanecer nele, como se algo de nossa própria existência tivesse encontrado lugar diante de nós. Pode até mesmo ser que palavras brotem em sentido desconexo, como um ganido no escuro para, só depois de um tempo a reconhecermos como poesia.
O que acontece nesses encontros? A situação que vivemos pode continuar a mesma, pois esses encontros não mudam os acontecimentos: a perda permanece, o conflito ainda exige uma decisão, a ausência não desaparece. O destino continua sua forma implacável de impor sua existência mas, alguma coisa inicialmente não identificada pode modificar nossa maneira de experimentar o que acontece. Aquilo que parecia impossível de expressar encontra uma forma e a dor, antes solitária, pode tornar-se compartilhável, talvez não inteligível, mas seu compartilhamento pode atenuar a solidão do rompimento experienciado.
É desse horizonte que proponho uma reflexão sobre a frase de Friedrich Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da verdade”. Nesta reflexão, aproximamos a experiência artística, a dimensão criativa da psicoterapia e a arteterapia, reconhecendo suas relações e também suas especificidades.
Algumas verdades são muito espaçosas
A frase de Nietzsche pertence a um fragmento póstumo de 1888 e vem precedida pela afirmação: “A verdade é feia”. Sua provocação abre um problema filosófico sobre as relações entre arte, verdade e vida, mas aqui abordo essa provocação como ponto de partida para uma pergunta clínica: o que a arte pode tornar possível quando conhecer ou explicar o sofrimento não basta para transformar nossa relação com ele?
Conhecemos a psicopatologia, explicamos os fenômenos de sofrimento tais como fazemos com os transtornos de personalidade, com a depressão e com a ansiedade. Modificamos, a cada nova publicação dos tratados de psicopatologia, a descrição da origem, da classificação e dos modos de tratamento. Mas muitas vezes estamos diante da experiência do sofrimento de nossos pacientes, emudecidos diante de sua permanência e insistência.
Na clínica, encontramos acontecimentos cuja realidade não podemos simplesmente desfazer e eles são tão doloridas quanto é, para nós mesmos, nossa experiência quando uma pessoa morreu, uma relação terminou, uma condição de saúde impôs limites ou uma violência aconteceu. Precisamos reconhecer a irreversibilidade e dureza desses acontecimentos, mas reconhecer não é suficientemente necessário para cuidado.
A expressão cotidiana “A verdade dói” revela o quanto algumas descobertas, afirmações e acontecimentos podem ocupar o lugar de verdades definitivas sobre a existência. Passamos simplesmente a afirmar “sou incapaz”, “ninguém poderá me amar”, “minha vida acabou” e, nessas formulações, uma experiência dolorosa pode adquirir a extensão de uma sentença sobre a pessoa inteira e sobre tudo o que ainda poderia viver. A verdade torce a consciência, ofuscando o futuro, fazendo o tempo parar e passamos a não acreditar mais.
Efetivamente, a realidade de um acontecimento é bem diferente dos sentidos que ele assume na existência e nisso pode estar a dificuldade das construções políticas, sociológicas e psicológicas . Um fato pode ser distorcido de acordo com o interesse em suas versões, uma cultura pode ser menosprezada em função da manutenção da dominância, assim como uma perda pode ser irreversível. Mas felizmente a nossa relação com essa perda pode se transformar, de forma a termos que admitir que a história de alguém contém acontecimentos que não podem ser desfeitos, mas permanece aberta a novas compreensões, encontros e possibilidades.
O mais inexplicável é que a arte pode participar dessa abertura e, na maioria das vezes sua participação passa despercebida, quase que naturalmente e sem suficiente delimitação de seu papel na existência humana.
A Arteterapia é a formatação da dor?
A grande maioria das experiências humanas não chega imediatamente às palavras, auxiliando para que o sofrimento às vezes apareça como um peso, uma inquietação, um aperto e até mesmo uma sensação de vazio. Sabemos que algo acontece, mas ainda não conseguimos distinguir seus contornos podendo, às vezes, até recorrer à expressão démodé “angústia”. Mas uma angústia que, ao invés de impulsionar, parece travar e impedir.
Mas, ao experimentarmos qualquer movimento artístico, ainda que assim não denominado, ao pintar, modelar, escrever, dançar ou produzir sons, uma pessoa pode encontrar modos de expressão que não estavam disponíveis em seu relato. E assim, uma cor, um gesto, um ritmo, algumas palavras aparentemente inventadas, pode tornar perceptível algo que permanecia difuso e perdido em puro sofrimento.
Do ponto de vista fenomenológico, interessa acompanhar como essa experiência se apresenta e se modifica, o que significa dizer que o sentido de uma produção artística precisa ser compreendido na relação entre quem cria, aquilo que é criado e a situação vivida. Pensemos, então, em uma pessoa enlutada que pinta uma simples cadeira vazia. O que está sendo transformado em imagem pode estar relacionado à ausência de alguém, mas seu sentido não está previamente decidido: ele se constitui e se transforma na relação entre a pessoa, a criação e a situação vivida. O simples olhar para a pintura, pode fazer com que a pessoa reconheça saudade, raiva, alívio, ternura ou uma conversa que ficou interrompida e assim ela pode descobrir algo que não esperava encontrar.
A imagem oferece uma forma com a qual ela pode se relacionar: aproximar-se, observar, modificar, compartilhar e, ao encontrar expressão, a experiência pode ganhar diferenças e contornos. Assim, a dor passa a admitir outras maneiras de ser vivida a ponto de podermos admitir que ela foi formatada, no sentido em que deu forma (outra relação entre planos e linhas) e também “limpou” alguns aspectos, instalando perspectivas possíveis.

O encontro clínico e a criação
Essa perspectiva traz consequências para a atitude do psicoterapeuta, tanto no que se refere ao arteterapeuta que recorre à arte como instrumento de trabalho, quanto ao psicoterapeuta que faz da relação um ato criativo.
No primeiro caso, o terapeuta que se coloca com seu paciente diante de uma produção artística, a pressa de explicar pode encobrir justamente o que precisa ser acompanhado. Em vez de decidir antecipadamente o significado de uma imagem, importa muito mais perguntar: como foi produzi-la? O que chama sua atenção agora? O que acontece em seu corpo quando você olha para ela? Há algo que gostaria de acrescentar, retirar ou transformar? Que sentimentos apareceram à medida que você foi criando?
Essas perguntas podem favorecer a exploração da experiência presente, ao passo que o terapeuta acompanha a pessoa no reconhecimento de seus próprios sentidos, atento ao que emerge no encontro. Na Gestalt-terapia e Arteterapia, essa atenção pode contribuir para perceber como a pessoa estabelece contato com o que vive, como expressa suas necessidades e como encontra — ou deixa de encontrar — possibilidades de responder à situação.
O valor clínico da criação não depende da qualidade técnica da obra, pois uma linha hesitante, uma pequena composição ou um movimento quase imperceptível podem participar de uma experiência significativa. Na verdade o que importa é compreender o que acontece com aquela pessoa enquanto cria e se relaciona com sua criação, ao mesmo tempo em que se auxilia essa pessoa a tornar-se mais consciente (awareness!) do que experiencia no processo. Ao mesmo tempo, é importante respeitar seu ritmo, considerando que a atividade artística pode mobilizar lembranças e afetos difíceis, fazendo então reconhecer que a presença da arte na clínica exige sensibilidade para reconhecer as condições de sustentação, os limites e as possibilidades de cada encontro.
No segundo caso, a dimensão criativa aparece na própria relação terapêutica. Uma pergunta, um silêncio, uma mudança de ritmo ou uma maneira diferente de acolher o relato podem favorecer a emergência de algo que ainda não encontrava expressão. A criatividade clínica se constitui na participação sensível do terapeuta e do paciente em um encontro cujo desdobramento não está inteiramente previsto, que foge a prescrições puramente técnicas e permite ao psicoterapeuta explorar também sua força criativa. Nesse encontro, podem surgir outras maneiras de perceber, dizer e viver a experiência, inaugurando novas perspectivas e construindo outras verdades, fazendo com que as expressões “sou incapaz”, “ninguém poderá me amar”, “minha vida acabou” possam dar lugar à descoberta de outras capacidades, a se sentir amado e ver que a vida continua.
A continuidade da vida, com e apesar do sofrimento não traz uma afirmação conformista, assim como não determina que certos sofrimentos não possam ser evitados. Mas há situações de inevitabilidade, sejam aquelas impostas por outros, sejam aquelas criadas por si mesmo. A criação em psicoterapia e a própria psicoterapia como criação têm a tarefa de auxiliar na distinção desses sofrimentos, mas também na descoberta de como estar com ele, como sugere, por exemplo, o dizer de Ferreira Gullar “Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena. Embora o pão seja caro, e a liberdade pequena”. O pão caro e a liberdade pequena nomeiam restrições concretas, econômicas e políticas. Ao aproximarmos esses versos da clínica, podemos reconhecer uma afirmação da vida que mantém à vista as condições que a restringem. Descobrir o que vale a pena pode sustentar tanto a possibilidade de continuar quanto a força necessária para transformar essas condições.
A forma da vida e a vida que se forma
Aquilo que é tratado em psicoterapia nada mais é que a vida da pessoa em questão. Parece simples, e até mesmo um simplismo, dizer que o objeto da psicoterapia é a vida da pessoa, pois se tudo aquilo que fazemos como seres humanos diz respeito, em última instância, à vida, a psicoterapia não teria seu objeto delimitado e particularizado para ser considerada um método específico de enfrentar as dificuldades da vida. Com essa reflexão nos aproximamos mais do objeto da clínica, ao considerá-lo, agora, como a apropriação do sofrimento humano, inerente à vida, e sua abordagem com o propósito de minimizá-lo, a partir de intervenções muito específicas.
Na aproximação entre arte e clínica precisamos considerar que a compreensão do sofrimento envolve mais do que explicações, descrições e classificações, como evidentemente também precisamos nos apoderar. Envolve também as maneiras pelas quais uma pessoa consegue sentir o sofrimento, expressá-lo, compartilhá-lo e encontrar respostas possíveis. De forma que uma obra pode permitir que permaneçamos diante de uma experiência difícil com outros recursos, pode oferecer uma distância para olhar, uma linguagem para comunicar ou uma forma para reconhecer aquilo que nos acontece.
É nesse sentido, a frase de Nietzsche nos ajuda a perguntar o que sustenta a vida diante do que a ameaça, fazendo com que através da arte, surjam novas perspectivas e arte participe dessa sustentação ao ampliar os modos de experimentar a existência. Mudam-se assim as verdades “espaçosas”, as que podem parecer eternas ou esmagadoras.
Talvez uma das contribuições da arte à clínica esteja precisamente aí: oferecer condições para que aquilo que parecia ocupar todo o espaço encontre uma forma, entre em relação e possa assumir novos sentidos. A dor pode permanecer, posto que compõe e é inerente à existência, mas a pessoa pode descobrir que ainda há gestos, encontros e possibilidades a partir dos quais sua vida continua a se constituir. Agora, com um outro olhar e a possibilidade de um novo modo de ser.
Referências
GULLAR, Ferreira. Dois e dois: quatro. In: GULLAR, Ferreira. Dentro da noite veloz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 120.
NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos póstumos: 1887–1889. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. v. 7.



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