O corpo e a percepção no autismo: contribuições de Merleau-Ponty
- IGC - Instituto Gestalt

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Uma das características mais frequentemente relatadas por pessoas autistas e suas famílias envolve diferenças na forma de perceber o ambiente: sons excessivamente intensos, desconforto diante de determinadas texturas, dificuldade com mudanças espaciais, necessidade de previsibilidade, hipersensibilidade corporal ou busca intensa por determinados estímulos sensoriais. Muitas vezes, essas experiências são descritas apenas como “alterações sensoriais” ou “comportamentos inadequados”. No entanto, a fenomenologia da percepção permite compreendê-las de maneira mais profunda.
Em Maurice Merleau-Ponty, o corpo não é entendido como um simples organismo biológico ou uma máquina comandada pela mente. O corpo é o lugar da experiência. É através dele que percebemos o mundo, nos orientamos no espaço, encontramos os outros e construímos nossas formas de presença. Como afirma Merleau-Ponty (1945/2018), “o corpo é nosso meio geral de ter um mundo”.
Essa perspectiva é particularmente importante para compreender o autismo. Muitas das dificuldades presentes no espectro não dizem respeito apenas à comunicação verbal ou ao comportamento observável, mas a uma forma singular de perceber, sentir e habitar o mundo. A fenomenologia ajuda justamente a deslocar o olhar do sintoma isolado para a experiência vivida.
Merleau-Ponty e a fenomenologia da percepção

Merleau-Ponty (1945/2018) rompe com uma separação clássica entre mente e corpo. Para ele, não primeiro pensamos e depois nos relacionamos com o mundo; nossa relação com o mundo já é corporal desde o início. O corpo não é um objeto entre objetos, mas aquilo através do qual o mundo se torna presente para nós.
Essa formulação tem consequências importantes para a psicologia e para a clínica. A percepção deixa de ser entendida como simples recepção passiva de estímulos e passa a ser compreendida como uma experiência ativa, situada e encarnada. Ver, ouvir, tocar, mover-se e aproximar-se dos outros não são operações neutras: são modos de participação no mundo.
No autismo, isso significa que diferenças perceptivas e sensoriais não devem ser reduzidas apenas a alterações neurológicas isoladas. Elas fazem parte da forma como o mundo é vivido. O excesso de ruídos, a luminosidade intensa, determinadas texturas ou mudanças inesperadas podem não ser apenas “incômodos”, mas experiências profundamente desorganizadoras da relação corporal com o ambiente.
Ana Beatriz Machado de Freitas (2018), ao discutir a fenomenologia da percepção e o autismo, mostra que a corporeidade da pessoa autista não pode ser compreendida apenas pela lógica do déficit. É necessário reconhecer que há formas específicas de experiência corporal e perceptiva que reorganizam a maneira como o sujeito se situa no mundo.
Leia também: Como a fenomenologia compreende o autismo?
O corpo não é apenas biológico

Uma das contribuições mais importantes de Merleau-Ponty é mostrar que o corpo vivido é diferente do corpo apenas biológico. O corpo não é somente aquilo que pode ser medido, observado ou explicado por funções orgânicas; ele é também experiência, presença, direção e sentido.
Na experiência autista, essa distinção é decisiva. Muitas intervenções acabam tratando o corpo apenas como algo a ser regulado externamente: controlar movimentos, reduzir comportamentos repetitivos ou aumentar tolerância a estímulos. Embora algumas dessas intervenções possam ser importantes em determinados contextos, existe o risco de se perder aquilo que o corpo expressa como modo de organização da experiência.
Quando uma pessoa autista evita determinados ambientes, tapa os ouvidos, busca movimentos repetitivos ou necessita de previsibilidade corporal, isso pode estar relacionado a uma tentativa de estabilizar sua relação perceptiva com o mundo. O comportamento não surge no vazio; ele frequentemente expressa uma forma de regulação da experiência corporal.
Merleau-Ponty (1945/2018) insiste que o corpo não é mero receptor de estímulos, mas estrutura de relação. Isso significa que alterações perceptivas no autismo não devem ser vistas apenas como falhas, mas como modos específicos de organização do contato com o ambiente.
Sensibilidade, ambiente e sobrecarga perceptiva

Muitas pessoas autistas relatam experiências de sobrecarga sensorial diante de sons, luzes, cheiros, multidões ou mudanças inesperadas. A fenomenologia ajuda a compreender que essas situações não são apenas reações exageradas a estímulos neutros, mas formas particulares de vivência perceptiva.
O ambiente contemporâneo frequentemente exige rapidez de adaptação, múltiplos estímulos simultâneos e intensa demanda relacional. Para algumas pessoas autistas, essa organização do mundo pode produzir experiências constantes de invasão perceptiva. O problema, nesse caso, não está apenas “na pessoa”, mas também no modo como o ambiente se estrutura.
Essa compreensão é importante porque desloca a clínica de uma lógica puramente corretiva. Em vez de perguntar apenas “como eliminar esse comportamento?”, o terapeuta passa a perguntar: “como essa pessoa está vivendo o ambiente?”. O foco deixa de ser exclusivamente a adaptação normativa e passa a incluir a construção de condições mais habitáveis de relação com o mundo.
Freitas (2018) destaca justamente que a fenomenologia permite ampliar a compreensão da corporeidade autista ao reconhecer que percepção e interação são inseparáveis. O modo como o corpo percebe altera profundamente as possibilidades de encontro, aprendizagem e vínculo.
Corpo, contato e relação com o outro
A percepção não envolve apenas objetos e estímulos físicos. Ela também participa da forma como nos relacionamos com os outros. O contato humano acontece corporalmente: pelo olhar, pela distância, pela voz, pelos ritmos da conversa, pelos gestos, pela presença.
No autismo, muitas dificuldades relacionais podem envolver diferenças nessa dimensão corporal do encontro. Isso significa que a questão não se reduz a “falta de interesse social”, como frequentemente aparece em leituras simplificadas. Em muitos casos, o encontro com o outro pode ser vivido como excessivamente imprevisível, invasivo ou difícil de modular perceptivamente.
A fenomenologia permite compreender que a intersubjetividade possui uma base corporal e pré-reflexiva. Antes mesmo da linguagem elaborada, os seres humanos já se relacionam por ritmos, expressões, movimentos, aproximações e formas de presença. Quando essas dimensões se organizam de maneira distinta, o contato também assume configurações diferentes.
Essa leitura é importante para evitar interpretações moralizantes ou normativas da experiência autista. Nem toda dificuldade de contato corresponde à ausência de desejo de relação. Muitas vezes, trata-se de outra forma de construir aproximação, presença e vínculo.
Implicações clínicas: o que muda na psicoterapia?
A compreensão fenomenológica da percepção transforma diretamente a prática clínica. Em vez de reduzir a psicoterapia a um conjunto de técnicas voltadas para corrigir comportamentos, o terapeuta passa a trabalhar também com a experiência corporal e perceptiva da pessoa autista.
Isso implica, por exemplo:
observar como o ambiente afeta o paciente;
perceber sinais corporais de sobrecarga;
respeitar ritmos de aproximação;
compreender comportamentos repetitivos como possíveis formas de regulação;
construir um espaço terapêutico previsível e habitável.
A clínica deixa de se orientar apenas pela pergunta “como adaptar essa pessoa ao mundo?” e passa a incluir outra questão: “como tornar o mundo mais habitável para essa pessoa e ajudá-la a encontrar formas mais viáveis de relação consigo e com os outros?”.
Nesse ponto, a Gestalt-terapia encontra uma importante proximidade com a fenomenologia. A noção gestáltica de ajustamento criativo permite compreender muitos comportamentos autistas não apenas como sintomas a serem eliminados, mas como tentativas de organização diante de um campo vivido como excessivo ou desorganizador.
Isso não significa romantizar o sofrimento nem abandonar intervenções importantes. Significa reconhecer que o cuidado clínico precisa partir da compreensão da experiência antes de tentar transformá-la.
O autismo e a reconstrução da experiência
Merleau-Ponty ajuda a compreender que existir é sempre existir corporalmente. O corpo não é um detalhe secundário da experiência: ele é o próprio lugar onde o mundo acontece.
No autismo, isso exige uma clínica capaz de reconhecer que percepção, sensorialidade e relação não são apenas aspectos acessórios do diagnóstico, mas dimensões centrais da forma de existir. Muitas vezes, aquilo que aparece externamente como “rigidez”, “isolamento” ou “comportamento inadequado” pode expressar tentativas de construir estabilidade perceptiva e continuidade da experiência.
A tarefa clínica, portanto, não é simplesmente normalizar o comportamento, mas favorecer possibilidades mais habitáveis de presença no mundo. Isso implica compreender o corpo não como problema a ser corrigido, mas como lugar singular de relação, percepção e existência.
FAQ – Perguntas frequentes
O que Merleau-Ponty diz sobre o corpo?
Merleau-Ponty afirma que o corpo não é apenas biológico, mas o meio pelo qual nos relacionamos com o mundo. Toda percepção e experiência humana são corporais.
Qual a relação entre percepção e autismo?
Muitas pessoas autistas apresentam formas específicas de percepção sensorial e corporal. Isso influencia diretamente sua relação com o ambiente, com os outros e consigo mesmas.
O que a fenomenologia acrescenta à compreensão do autismo?
Ela permite compreender a experiência vivida da pessoa autista, e não apenas descrever sintomas ou comportamentos observáveis.
O que é corpo vivido?
É o corpo compreendido como experiência, presença e relação com o mundo, e não apenas como organismo biológico.
Como isso muda a psicoterapia?
A psicoterapia passa a considerar a experiência corporal, perceptiva e sensorial da pessoa autista, construindo intervenções mais compreensivas e menos normativas.
Referências bibliográficas
Essenciais
FREITAS, Ana Beatriz Machado de. Contribuições da fenomenologia da percepção para compreender a corporeidade de pessoas com autismo. Filosofia e Educação, Campinas, v. 10, n. 2, p. 463-481, 2018.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 2018.
LIMA, Rossano Cabral. Investigando o autismo: teoria da mente e a alternativa fenomenológica. Revista do NUFEN, Belém, v. 11, n. 1, p. 181-197, 2019.
KARWOWSKI, Silverio Lcio. Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 21, n. 1, p. 62-73, 2015.
Leituras complementares
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2012.
MERLEAU-PONTY, Maurice. A estrutura do comportamento. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
NUNES, Marcos Vinicius Lourenço. Transtorno do espectro autista e fenomenologia: um distanciamento baseado em mitos. Revista Outro Pensar, v. 2, p. 56-71, 2025.



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