História do autismo: de Kanner à neurodiversidade
- IGC - Instituto Gestalt

- há 2 dias
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A forma como compreendemos o autismo hoje é resultado de um longo percurso histórico, marcado por mudanças conceituais, avanços científicos e revisões críticas. O que atualmente se denomina Transtorno do Espectro Autista (TEA) nem sempre foi entendido como uma condição do neurodesenvolvimento. Ao contrário, ao longo do século XX e início do século XXI, o autismo foi interpretado de diferentes maneiras — desde um distúrbio emocional até uma condição biológica complexa.
Compreender a história do autismo não é apenas um exercício teórico. Trata-se de reconhecer que os diagnósticos não são fixos, mas construções que evoluem conforme novos conhecimentos e contextos culturais emergem. Essa trajetória ajuda a evitar reducionismos e amplia a compreensão clínica do fenômeno.
As primeiras descrições: Leo Kanner e o autismo infantil

O marco inicial da descrição do autismo como condição clínica é atribuído a Leo Kanner, que em 1943 publicou o artigo Autistic Disturbances of Affective Contact. Nesse trabalho, Kanner descreveu um grupo de crianças que apresentavam dificuldades marcantes de interação social, comunicação e um padrão restrito e repetitivo de comportamentos.
Kanner identificou características como:
isolamento social precoce
dificuldade de contato afetivo
apego à rotina
linguagem peculiar
Inicialmente, o autismo foi entendido como um distúrbio raro e distinto de outras condições, como a esquizofrenia infantil. No entanto, essa distinção ainda era incipiente e abriria caminho para interpretações posteriores. (KANNER, 1943)
Hans Asperger e a ampliação do espectro

Quase simultaneamente, em 1944, Hans Asperger descreveu crianças com dificuldades sociais semelhantes, mas com desenvolvimento da linguagem preservado e, em alguns casos, habilidades cognitivas específicas bastante desenvolvidas.
Durante décadas, os trabalhos de Asperger permaneceram pouco difundidos fora da Europa. Apenas nos anos 1980 e 1990 sua contribuição foi amplamente reconhecida, influenciando a ideia de que o autismo poderia se manifestar em diferentes níveis de intensidade.
Essa ampliação foi fundamental para o surgimento do conceito de “espectro” (ASPERGER, 1944/1991).
A fase psicogênica: o equívoco das “mães geladeira”
Entre as décadas de 1950 e 1970, o autismo passou a ser interpretado, em muitos contextos, como resultado de falhas no vínculo afetivo entre mãe e filho. Essa perspectiva, associada a autores como Bruno Bettelheim, ficou conhecida como a teoria das “mães geladeira”.
Essa abordagem atribuia o autismo a uma suposta frieza emocional dos pais, o que levou a graves consequências:
culpabilização familiar
intervenções inadequadas
atraso no avanço científico
Hoje, essa hipótese é amplamente refutada e considerada um dos equívocos mais significativos na história da psicopatologia. (BETTELHEIM, 1967)
A virada biológica e o autismo como transtorno do neurodesenvolvimento
A partir das décadas de 1970 e 1980, pesquisas começaram a demonstrar que o autismo possui bases neurobiológicas. Estudos em genética, neuroimagem e desenvolvimento infantil contribuíram para uma mudança decisiva na compreensão do fenômeno.
Gradualmente, o autismo deixou de ser entendido como um distúrbio emocional para ser reconhecido como um transtorno do neurodesenvolvimento.
Estudos em genética, neuroimagem e desenvolvimento infantil contribuíram para uma mudança decisiva na compreensão do fenômeno do autismo
Essa mudança se consolidou com os manuais diagnósticos, especialmente:
DSM-III (1980) — primeira inclusão mais sistemática
DSM-IV (1994) — ampliação das categorias
DSM-5 (2013/2023) — unificação no conceito de espectro
(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2023)
O conceito de espectro: uma mudança decisiva

A noção de espectro representa uma das mudanças mais importantes na evolução do diagnóstico de autismo. Em vez de categorias rígidas, passou-se a compreender o autismo como um continuum, com diferentes níveis de suporte e formas de manifestação.
Isso permitiu:
maior inclusão diagnóstica
reconhecimento de casos antes não identificados
compreensão mais dimensional
Ao mesmo tempo, trouxe novos desafios, como o risco de ampliação excessiva do diagnóstico e a necessidade de maior precisão clínica (LORD et al., 2020).
Neurodiversidade: uma nova perspectiva
Nas últimas décadas, emergiu o conceito de neurodiversidade, que propõe compreender o autismo não apenas como um transtorno, mas como uma variação legítima do funcionamento humano.
Essa perspectiva enfatiza:
diferenças cognitivas como parte da diversidade
valorização da singularidade
crítica à patologização excessiva
A neurodiversidade não nega as dificuldades associadas ao autismo, mas questiona modelos exclusivamente deficitários (HAPPÉ; FRITH, 2020).
Entre ciência, cultura e clínica: o autismo hoje
A história do autismo mostra que sua compreensão sempre esteve situada entre ciência e cultura. Cada época produziu suas próprias explicações, influenciadas por conhecimentos disponíveis, valores sociais e paradigmas teóricos.
Hoje, o desafio não é apenas definir o autismo, mas compreendê-lo em sua complexidade:
biológica
psicológica
relacional
existencial
É nesse ponto que abordagens como a fenomenologia e a Gestalt-terapia começam a se tornar relevantes — não para substituir os avanços científicos, mas para ampliar a compreensão da experiência vivida da pessoa autista.
Esse será o foco dos próximos textos.
Próximo artigo: Neurodiversidade: o que muda na clínica psicológica?
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é a história do autismo?
É o percurso de transformações na forma como o autismo foi compreendido, desde suas primeiras descrições até as concepções atuais.
Quem descobriu o autismo?
O autismo foi descrito pela primeira vez por Leo Kanner em 1943.
O autismo sempre foi considerado um transtorno biológico?
Não. Durante décadas, foi interpretado como resultado de fatores emocionais e familiares, o que hoje é considerado incorreto.
O que mudou com o conceito de espectro?
O autismo passou a ser compreendido como um continuum, com diferentes níveis de manifestação.
O que é neurodiversidade?
É uma perspectiva que entende o autismo como uma variação do funcionamento humano, e não apenas como um transtorno.
Referências bibliográficas
Essenciais
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.
KANNER, L. Autistic disturbances of affective contact. Nervous Child, v. 2, p. 217-250, 1943.
LORD, C. et al. Autism spectrum disorder. Nature Reviews Disease Primers, 2020.
Complementares
ASPERGER, H. Autism and Asperger syndrome. 1944/1991.
BETTELHEIM, B. The empty fortress. 1967.
HAPPÉ, F.; FRITH, U. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 2020.



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