Quando o diagnóstico explica — e quando ele deixa de explicar o autismo
O diagnóstico pode explicar — e isso importa
Receber um diagnóstico pode produzir um movimento importante de compreensão. Para muitas pessoas autistas, especialmente quando o diagnóstico acontece tardiamente, ele permite reorganizar a própria história. Experiências anteriormente compreendidas como inadequação, dificuldade, exagero, isolamento, rigidez ou incapacidade podem adquirir outros sentidos quando passam a ser reconhecidas no contexto de uma condição que acompanha aquela pessoa ao longo de seu desenvolvimento.
O diagnóstico pode ajudar a compreender por que determinados ambientes sempre foram tão cansativos, por que certas situações sociais exigiram esforço desproporcional ou por que mudanças aparentemente pequenas produziram intensa desorganização. Pode lançar luz sobre particularidades da comunicação, da interação social, do processamento sensorial, da necessidade de previsibilidade e das formas de autorregulação. Pode, inclusive, produzir alívio ao oferecer uma referência compartilhável para experiências que durante muitos anos permaneceram sem nome.
Esse efeito pode ser particularmente significativo no diagnóstico tardio. Estudos sobre camuflagem social mostram que algumas pessoas autistas desenvolvem estratégias complexas para ocultar ou compensar características autísticas com a finalidade de corresponder às expectativas sociais. Hull et al. (2017), em estudo qualitativo com adultos autistas, identificaram tanto estratégias de mascaramento e compensação quanto custos associados a esse esforço, entre eles exaustão e repercussões sobre a própria percepção de identidade. Portanto, aquilo que externamente parece uma adaptação bem-sucedida pode esconder um esforço cotidiano considerável.
Nesse sentido, o diagnóstico explica. Ele oferece uma linguagem compartilhada, organiza informações clínicas, orienta avaliações e intervenções, favorece o acesso a direitos e pode contribuir para que a própria pessoa compreenda melhor determinadas características de seu modo de estar no mundo. O problema não começa quando diagnosticamos. Começa quando esperamos que o diagnóstico explique tudo.

Há um ponto em que o diagnóstico deixa de explicar
Dizer que uma pessoa é autista não nos diz, por si só, como ela experimenta o próprio corpo, quais situações lhe oferecem segurança, como estabelece vínculos, o que a assusta, o que desperta seu interesse, quais experiências atravessaram sua história ou quais estratégias precisou desenvolver para permanecer em determinados ambientes. O diagnóstico identifica características compartilhadas por um grupo, mas a existência concreta nunca se reduz àquilo que os membros desse grupo têm em comum.
Também não podemos explicar antecipadamente, apenas pelo diagnóstico, um silêncio, uma recusa, uma crise, um afastamento ou uma dificuldade de participação. É justamente nesse ponto que o raciocínio clínico precisa começar, e não terminar. O profissional precisa ser capaz de reconhecer as características relacionadas ao autismo sem transformar o autismo em causa universal de tudo aquilo que a pessoa faz.
Imagine uma criança autista que se recusa a entrar na sala de aula. Podemos rapidamente concluir: “é por causa do autismo”. A afirmação pode até conter alguma verdade, mas clinicamente ela ainda nos diz muito pouco. O que exatamente está acontecendo naquela situação? A sala está sensorialmente insuportável? Houve uma mudança inesperada na rotina? Existe conflito com outras crianças? A atividade proposta ultrapassa os recursos disponíveis naquele momento? A criança compreendeu o que acontecerá naquele espaço? Está cansada depois de muitas horas tentando se regular? Está com medo? Houve alguma experiência anterior naquele ambiente que agora participa da recusa? Ou está tentando comunicar algo para o qual ainda não encontrou outra forma de expressão?
O diagnóstico participa da compreensão dessas possibilidades. Ele pode nos ajudar, por exemplo, a considerar diferenças sensoriais que talvez fossem ignoradas. Freitas (2018), a partir da fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty, mostra justamente a relevância das experiências sensoriais e da corporeidade para a compreensão das relações da pessoa autista com o mundo. Mas reconhecer essa dimensão não nos autoriza a antecipar o sentido da experiência concreta. É preciso encontrá-lo naquela pessoa, naquela situação e naquele campo.
O diagnóstico pode fazer parte da compreensão da experiência. Ele não encerra a pergunta. E, na clínica, essa diferença é fundamental.
Do diagnóstico à experiência: uma mudança aparentemente pequena que transforma a clínica
Uma perspectiva fenomenológica e gestáltica nos convida a realizar um deslocamento. Em vez de perguntarmos apenas “qual comportamento é explicado pelo autismo?”, podemos perguntar: “como essa pessoa está vivendo esta situação?”. As duas perguntas podem parecer próximas, mas conduzem a posições clínicas profundamente diferentes. A primeira tende a procurar correspondências entre comportamento e categoria diagnóstica; a segunda mantém aberta a investigação sobre o sentido que determinada experiência adquire na relação entre aquela pessoa e seu mundo.
Lima (2019), ao examinar criticamente modelos cognitivos do autismo e apresentar a alternativa fenomenológica, chama atenção justamente para a necessidade de recuperar dimensões corporificadas, pré-reflexivas e intersubjetivas da experiência. A fenomenologia não precisa negar as contribuições das explicações cognitivas ou neurobiológicas para sustentar que elas não esgotam o fenômeno humano que procuram explicar.
Na perspectiva da Gestalt-terapia, esse deslocamento ganha ainda outra dimensão: o comportamento deixa de ser pensado exclusivamente como propriedade de um indivíduo isolado e passa a ser compreendido no campo em que emerge. Isso exige considerar as relações, as demandas ambientais, os estímulos sensoriais, as expectativas sociais, a história daquela pessoa, os recursos disponíveis naquele momento e as formas de ajustamento que ela construiu para lidar com as condições encontradas. Perls, Hefferline e Goodman (1951/1997) situam a experiência na fronteira de contato entre organismo e ambiente; compreender aquilo que alguém faz exige, portanto, olhar também para o mundo diante do qual esse fazer se tornou necessário.
Uma crise, por exemplo, não é suficientemente compreendida quando é denominada simplesmente “um comportamento do autismo”. Precisamos investigar em quais condições ela acontece. Uma aparente rigidez pode estar relacionada à necessidade de previsibilidade diante de um ambiente experimentado como excessivamente instável. O afastamento pode funcionar como tentativa de regulação diante de uma situação vivida como invasiva. O silêncio pode emergir em condições de sobrecarga. Uma recusa pode constituir uma forma possível de comunicação quando outras maneiras de expressar desconforto não estão disponíveis naquele momento.
Nada disso significa atribuir antecipadamente uma função positiva a todo comportamento. Fazer isso seria apenas substituir uma interpretação automática por outra. A postura fenomenológica exige justamente o contrário: suspender respostas rápidas o suficiente para investigar a experiência concreta daquela pessoa. Como discute Karwowski (2015), a psicopatologia fenomenológica exige preservar a possibilidade de compreensão do vivido para além da simples atribuição classificatória.
O risco de transformar o diagnóstico em uma explicação total

Quando o diagnóstico passa a explicar antecipadamente tudo aquilo que a pessoa faz, surge um paradoxo: uma categoria criada para ampliar nossa capacidade de compreensão pode começar a impedir que continuemos compreendendo. A pessoa progressivamente desaparece atrás do diagnóstico. Se está irritada, “é o autismo”. Se não quer participar, “é o autismo”. Se prefere ficar sozinha, “é o autismo”. Se apresenta dificuldades na escola, “é o autismo”. O diagnóstico deixa de funcionar como referência e passa a operar como resposta pronta.
Essa redução é particularmente problemática porque pessoas autistas não deixam de experimentar toda a amplitude da existência humana por serem autistas. Sentem medo, tristeza, vergonha, desejo, frustração, solidão, prazer, cansaço, pertencimento e sofrimento. Constroem vínculos e histórias, fazem escolhas, desenvolvem estratégias e produzem maneiras singulares de se relacionar com o mundo. O autismo participa dessa existência, mas não a substitui.
Nem todo sofrimento vivido por uma pessoa autista é consequência direta do autismo. Parte dele pode emergir justamente da relação entre diferenças individuais e ambientes pouco capazes de acolher modos diferentes de comunicação, interação, aprendizagem e regulação. Parte pode estar relacionada às exigências constantes de adaptação. Parte pode resultar da camuflagem social, da exclusão, do bullying, das experiências familiares, das relações afetivas ou de acontecimentos que poderiam atravessar a história de qualquer pessoa. A pesquisa de Hull et al. (2017), por exemplo, mostra que a camuflagem pode ser empregada para facilitar a integração social, mas pode também produzir custos importantes, lembrando que “parecer adaptado” e estar bem não são necessariamente a mesma coisa.
É nesse ponto que uma clínica orientada exclusivamente pelo diagnóstico encontra seu limite. Conhecer profundamente o autismo é indispensável para trabalhar com pessoas autistas. Mas conhecer profundamente o autismo não é ainda conhecer aquela pessoa autista.
O diagnóstico como mapa, não como território
Podemos pensar o diagnóstico como um mapa. Um bom mapa é extremamente importante: oferece referências, identifica características recorrentes, permite reconhecer caminhos e ajuda a orientar decisões. Seria imprudente entrar em determinados territórios recusando qualquer mapa disponível. Na clínica acontece algo semelhante: os conhecimentos acumulados sobre o autismo, os critérios diagnósticos, a pesquisa científica e os instrumentos de avaliação constituem referências que não devem ser desprezadas.
Mas nenhum mapa contém completamente o lugar que representa. Ele não mostra a temperatura do vento naquele instante, o modo como a luz atravessa determinada paisagem, os caminhos que surgiram depois de sua elaboração ou o que significa atravessar aquele território para uma pessoa específica. Conhecer o mapa não substitui percorrer o território.
Na clínica, o diagnóstico nos oferece referências sobre características do autismo. É somente no encontro, porém, que começamos a compreender como essas características participam de uma existência singular. A clínica comprometida com a pessoa não precisa escolher entre considerar o diagnóstico e abandoná-lo. Essa oposição é falsa. Precisamos conhecer suficientemente bem o diagnóstico para utilizá-lo quando ele explica e, ao mesmo tempo, possuir recursos clínicos suficientes para perceber quando ele já não é capaz de responder à pergunta que temos diante de nós.
O diagnóstico pode orientar o olhar. Não deve determinar antecipadamente tudo aquilo que encontraremos.
Da adaptação ao ajustamento criativo: qual é a tarefa da psicoterapia?

Essa distinção tem consequências importantes para a própria finalidade da psicoterapia. Se compreendermos a pessoa autista apenas a partir de seus desvios em relação a uma norma, a intervenção tenderá a concentrar-se em sua adaptação ao mundo tal como ele já se encontra organizado. Aprender a tolerar, responder adequadamente, controlar comportamentos e corresponder às expectativas ambientais pode tornar-se, então, o horizonte implícito do tratamento.
Uma clínica fenomenológica e gestáltica precisa ir além. Quando a pessoa possui condições para esse trabalho, a psicoterapia pode ajudá-la a compreender o sentido de sua condição em relação à própria existência: reconhecer necessidades, limites, possibilidades, formas de contato, maneiras de sofrer e estratégias construídas ao longo da vida. Não se trata de ensinar alguém simplesmente a suportar melhor um mundo que lhe é hostil, mas de ampliar sua capacidade de participar criativamente da relação com esse mundo.
A noção gestáltica de ajustamento criativo é especialmente importante nesse ponto. O ajustamento não significa submissão passiva do indivíduo às exigências ambientais. Organismo e ambiente constituem uma relação dinâmica, e a transformação saudável pode exigir modificações de ambos. Às vezes, a pessoa precisará desenvolver novos recursos; em outras situações, será o ambiente que precisará ser reorganizado. Frequentemente, as duas coisas acontecerão simultaneamente.
Uma psicoterapia bem-sucedida, nessa perspectiva, não deveria necessariamente terminar com uma pessoa autista mais semelhante às pessoas não autistas. Deveria contribuir para que ela disponha de maior awareness sobre sua experiência, melhores condições de contato, mais recursos para realizar escolhas e maior possibilidade de participar da transformação das condições nas quais vive. Não apenas adaptar-se ao mundo, mas encontrar maneiras originais de modificar a si e ao mundo para que a relação entre ambos se torne mais habitável.
A pergunta que o diagnóstico não pode responder sozinho
Talvez uma das perguntas mais importantes para profissionais que acompanham pessoas autistas seja esta:
Estou utilizando o diagnóstico para compreender melhor esta pessoa ou estou utilizando o diagnóstico para não precisar continuar perguntando sobre ela?
A diferença entre essas duas posições delimita duas maneiras muito diferentes de fazer clínica. Na primeira, o conhecimento sobre autismo amplia a capacidade do profissional de perceber fenômenos que poderiam passar despercebidos. Na segunda, o mesmo conhecimento fecha antecipadamente os sentidos possíveis da experiência.
A formação clínica precisa, portanto, sustentar simultaneamente dois movimentos que não deveriam ser separados: conhecer rigorosamente o autismo e aprender a encontrar a pessoa para além daquilo que já sabemos sobre ele. É justamente nesse intervalo — entre conhecimento e encontro, diagnóstico e experiência, generalidade e singularidade — que começa propriamente a psicoterapia.
Porque o cuidado começa quando o diagnóstico deixa de funcionar como resposta final e volta a ocupar o lugar que pode desempenhar de maneira mais fecunda: uma referência importante para compreender uma experiência humana que permanece irredutivelmente singular.
Para aprofundar: do diagnóstico à clínica
Compreender os critérios diagnósticos do autismo é necessário. Transformar esse conhecimento em capacidade de atuação clínica exige um passo além: aprender a reconhecer como corpo, sensorialidade, comunicação, vínculo, ambiente, história e modos de ajustamento se organizam de maneira singular em cada pessoa.
Esse é um dos eixos do minicurso Além do Diagnóstico – O autismo na clínica psicológica contemporânea, promovido pelo IGC. A proposta é justamente aproximar conhecimento sobre o autismo e prática clínica, oferecendo fundamentos para que psicólogos possam compreender a experiência da pessoa autista sem reduzi-la ao diagnóstico.
Conheça o minicurso Além do Diagnóstico — O autismo na clínica psicológica contemporânea
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FAQ — Perguntas frequentes
O diagnóstico de autismo explica todos os comportamentos de uma pessoa?
Não. O diagnóstico identifica características importantes do Transtorno do Espectro Autista e pode contribuir significativamente para a compreensão clínica, mas não determina o sentido de cada comportamento. Para compreender uma crise, recusa, silêncio ou afastamento, é necessário considerar também a experiência da pessoa, sua história e as condições do ambiente em que aquele fenômeno acontece.
O diagnóstico tardio de autismo pode ajudar uma pessoa adulta?
Sim. Para algumas pessoas, o diagnóstico tardio pode oferecer uma nova referência para compreender experiências anteriores relacionadas à interação social, sensorialidade, comunicação, necessidade de previsibilidade ou esforço de adaptação. No entanto, o significado do diagnóstico é singular e não deve ser pressuposto pelo profissional.
O que significa olhar para além do diagnóstico de autismo?
Não significa ignorar ou relativizar o diagnóstico. Significa utilizá-lo como uma das referências da compreensão clínica, investigando também como aquela pessoa concreta percebe, sente, estabelece vínculos, organiza sua experiência e se relaciona com o ambiente.
Como a fenomenologia compreende o diagnóstico de autismo?
A perspectiva fenomenológica valoriza a descrição da experiência vivida e procura evitar que a categoria diagnóstica substitua a compreensão da pessoa. O diagnóstico pode orientar a investigação, mas não esgota o sentido da experiência individual.
O que é ajustamento criativo na clínica com pessoas autistas?
Na Gestalt-terapia, ajustamento criativo refere-se às formas pelas quais a pessoa e o ambiente se organizam na relação. Na clínica com pessoas autistas, isso permite pensar o cuidado para além da simples adaptação às normas externas: podem ser necessárias mudanças tanto nos recursos da pessoa quanto nas condições ambientais para construir formas mais viáveis de contato e existência.
Referências bibliográficas
Referências essenciais
FREITAS, Ana Beatriz Machado. Contribuições da fenomenologia da percepção para compreender a corporeidade de pessoas com autismo. Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 32, n. 65, p. 463–492, 2018. DOI: 10.14393/REVEDFIL.issn.0102-6801.v32n65a2018-02.
HULL, Laura et al. “Putting on My Best Normal”: Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 47, p. 2519–2534, 2017. DOI: 10.1007/s10803-017-3166-5.
KARWOWSKI, Silverio Lucio. Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 21, n. 1, p. 62–73, 2015.
LIMA, Rossano Cabral. Investigando o autismo: teoria da mente e a alternativa fenomenológica. Revista do NUFEN, v. 11, n. 1, p. 194–214, 2019. DOI: 10.26823/RevistadoNUFEN.vol11.n01ensaio49.
PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997. Trabalho original publicado em 1951.
Leituras complementares
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2018. Trabalho original publicado em 1945.
YONTEF, Gary M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.




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