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Quando o uso de telas vira sofrimento clínico? Limites entre hábito, compensação e empobrecimento da experiência

  • Foto do escritor: IGC - Instituto Gestalt
    IGC - Instituto Gestalt
  • 6 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

A pergunta sobre o uso de tecnologia costuma aparecer de forma direta: isso aqui já é um problema?


Mas, na clínica, ela raramente se apresenta assim. O que chega não é o “uso de telas” como queixa principal, mas uma série de experiências que, à primeira vista, parecem pouco relacionadas: dificuldade de concentração, sensação de mente acelerada, ansiedade difusa, uma espécie de vazio que precisa ser constantemente preenchido.


O celular, muitas vezes, entra depois — não como causa evidente, mas como resposta. Como algo que organiza, alivia, ocupa.


Por isso, talvez a pergunta mais precisa não seja se o uso é excessivo, mas outra: o que está acontecendo com a experiência quando o uso de telas se torna necessário?


A partir de uma perspectiva fenomenológica e gestáltica, proponho pensar essa questão não em termos de categorias rígidas, mas como diferentes modos de organização da experiência. Entre o uso habitual e o sofrimento clínico, existe um campo intermediário que merece ser descrito com mais cuidado.



Uso habitual: quando a tecnologia não ocupa o lugar da experiência

Nem todo uso frequente de tecnologia indica problema — e isso precisa ser afirmado com alguma firmeza, sobretudo em um contexto em que há uma tendência a moralizar o tema.


Vivemos em um ambiente no qual a tecnologia não é um elemento externo à experiência. Ela compõe o campo no qual a vida se organiza. Trabalhamos, nos comunicamos, nos informamos e, em grande medida, nos relacionamos através dela. Nesse sentido, o uso de telas pode ser compreendido como parte do funcionamento ordinário do campo organismo-ambiente, tal como descrito por Perls, Hefferline e Goodman (1997).


O que caracteriza esse nível não é a frequência, mas a qualidade da relação. A pessoa utiliza a tecnologia, mas não depende dela para sustentar sua experiência. Consegue interromper o uso sem grande tensão, transitar para outras formas de contato, permanecer em uma conversa, sustentar uma atividade sem a necessidade constante de estímulos adicionais.


A tecnologia, aqui, não substitui a experiência — ela a atravessa, sem organizá-la de forma dominante.



uso de tecnologia de forma equilibrada no cotidiano

Se esse tema lhe interessa, veja nosso outro post sobre Tecnologia, vício digital e subjetividade.



Uso compensatório: quando a experiência começa a ser evitada

A situação se modifica quando o uso de tecnologia começa a assumir uma função mais precisa dentro da experiência. Não se trata mais apenas de um recurso disponível, mas de algo que passa a ser acionado em determinados momentos — quase sempre nos mesmos.


É comum observar que o celular aparece justamente quando algo começa a se delinear: um início de ansiedade, um tédio difícil de sustentar, um silêncio que se torna incômodo, uma sensação difusa de vazio. O gesto de pegar o aparelho não é aleatório. Ele responde a uma alteração no campo da experiência.


Nesses momentos, a tecnologia funciona como um regulador. Ela desloca a atenção, introduz novos estímulos, reorganiza rapidamente o campo. E, de fato, isso produz alívio. O desconforto diminui, a tensão se dissipa, a experiência se reorganiza em torno de algo mais manejável.


Mas é precisamente aqui que a questão clínica começa a se delinear com mais clareza. Porque, ao mesmo tempo em que regula, esse movimento também interrompe. A experiência que começava a emergir não se desenvolve. Ela é desviada antes de encontrar forma.


Como observa Adam Alter (2018), muitas tecnologias contemporâneas são projetadas para capturar e manter a atenção, operando com mecanismos de recompensa intermitente que favorecem esse tipo de engajamento contínuo. Do ponto de vista gestáltico, isso pode ser compreendido como uma interrupção recorrente do ciclo de contato.


O problema, portanto, não está apenas no uso em si, mas na repetição desse padrão. Pouco a pouco, a experiência deixa de se desenvolver por si mesma e passa a depender de estímulos externos para se reorganizar.

 

pessoa usando celular para evitar contato com emoções



Empobrecimento da experiência: quando a interrupção se torna modo de funcionamento

Em alguns casos, esse movimento deixa de ser pontual e passa a se configurar como um modo mais estável de funcionamento. Não se trata mais de recorrer à tecnologia em momentos específicos, mas de uma dificuldade mais ampla de sustentar a continuidade da experiência.


A atenção se fragmenta com facilidade. A permanência em uma atividade se torna difícil. A experiência tende a ser constantemente interrompida antes de se aprofundar. O silêncio passa a ser evitado, a pausa se torna incômoda, e a necessidade de estímulo contínuo se instala de forma quase imperceptível.


O que está em jogo aqui não é apenas o comportamento, mas a própria textura da experiência. Algo se torna mais raso, mais rápido, mais descontínuo. Como sugere Nicholas Carr (2011), o ambiente digital favorece um modo de funcionamento cognitivo marcado pela dispersão e pela dificuldade de sustentar processos de atenção prolongada.


Na clínica, isso se manifesta de diversas formas: relatos fragmentados, dificuldade de acompanhar o próprio pensamento, emoções que surgem e se dissipam rapidamente, uma sensação difusa de vazio ou de falta de densidade na experiência.


Na linguagem da Gestalt-terapia, poderíamos dizer que há uma fragilização da continuidade do contato. E, quando o contato se fragiliza, a experiência perde vitalidade.



fragmentação da atenção na cultura digital


O critério clínico: deslocando o foco da quantidade para a experiência

Diante desse cenário, torna-se tentador buscar critérios objetivos: tempo de uso, frequência de acesso, número de horas por dia. Embora esses indicadores possam ter alguma utilidade, eles são insuficientes para uma compreensão clínica mais precisa.


A perspectiva fenomenológica propõe um deslocamento importante. Em vez de perguntar apenas quanto, passamos a perguntar como.


Como a experiência se organiza durante o uso?

O que é evitado?

O que é interrompido?

O que não encontra possibilidade de desenvolvimento?


Esse deslocamento permite uma leitura menos moralizante e mais clínica do fenômeno. Como aponta Sherry Turkle (2017), a conectividade constante pode oferecer uma sensação de companhia, mas também pode reduzir a profundidade das relações e da experiência subjetiva.



Implicações para a prática clínica

Quando essa distinção começa a orientar a escuta, o trabalho clínico também se transforma. A questão deixa de ser simplesmente como reduzir o uso de tecnologia e passa a ser como compreender o lugar que esse uso ocupa na experiência do sujeito.


Isso implica investigar a função do comportamento, reconhecer os momentos em que ele é acionado, e, sobretudo, criar condições para que a experiência possa se desenvolver sem ser imediatamente interrompida.


Como propõe Jorge Ponciano Ribeiro (2012), o trabalho clínico em Gestalt-terapia está voltado à ampliação da awareness, isto é, à possibilidade de o sujeito reconhecer seus modos de funcionamento e reorganizar sua forma de contato com o mundo.



Conclusão

O uso de tecnologia não é, em si, o problema.


O que se torna clinicamente relevante é quando ele passa a ocupar o lugar da experiência — ou a impedir que ela se desenvolva.


Entre o hábito e o sofrimento, existe um campo intermediário que não pode ser reduzido a “vício” ou “falta de controle”. É nesse campo que a clínica contemporânea tem sido convocada a trabalhar.


E talvez seja justamente aí que precisamos refinar nossa escuta.



Essas questões serão aprofundadas no encontro do dia 22/04 sobre tecnologia, subjetividade e Gestalt-terapia. Saiba mais e inscreva-se.



FAQ (Perguntas Frequentes)

O uso frequente de celular já indica problema psicológico?

Não necessariamente. O critério clínico não é apenas a frequência, mas a função do uso e seus efeitos sobre a experiência.


O que diferencia uso compensatório de vício digital?

O uso compensatório envolve a função de regulação emocional. O vício implica perda de controle mais acentuada, prejuízo significativo e padrão repetitivo difícil de interromper.


Por que a Gestalt-terapia olha para a experiência e não só para o comportamento?

Porque o comportamento é compreendido como expressão de um modo de organização da experiência. Intervir apenas no comportamento pode não alterar o funcionamento subjacente.


Quando procurar ajuda?

Quando o uso de tecnologia está associado a sofrimento, sensação de perda de controle, prejuízo nas relações ou dificuldade de sustentar experiências emocionais.



REFERÊNCIAS

ALTER, Adam. Irresistível: por que somos viciados em tecnologia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

CARR, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

PERLS, Frederick; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.

RIBEIRO, Jorge Ponciano. Gestalt-terapia: refazendo um caminho. São Paulo: Summus, 2012.

TURKLE, Sherry. A conversa necessária. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

GINGER, Serge; GINGER, Anne. Gestalt: uma terapia do contato. São Paulo: Summus, 1995.

YONTEF, Gary. Processo, diálogo e awareness. São Paulo: Summus, 1998.


 
 
 

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