• Rafael Cidrão Campos

Que segurança queremos?

Ao longo de sua vida, o ser humano precisa escolher dentre diversas coisas e aspectos, caminhos, etc. Cada escolha, consciente ou não de sê-la, pode ser chamada de decisão. E dessas, muitas das que tomamos são baseadas na busca de segurança. Mas será possível alcançar uma segurança verdadeira?


O equilíbrio pode ser algo extremamente desejado, mas em muitas vezes, completamente artificial. Mais um produto da imaginação que algo possível na existência humana.


Quantas decisões que tomamos na nossa vida têm como objetivo alcançarmos uma segurança? Muitas pessoas optam por permanecer em empregos, relacionamentos amorosos, amizades não por que estes contextos estão sendo nutritivos e lhes proporcionando conhecimento, mas sim por que seria mais arriscado mudar e mais “seguro” permanecer na situação conhecida.


Entretanto, será que existe algo como uma segurança efetivamente livre de riscos? Qual o preço da busca por esta segurança? Estas são algumas perguntas que tentaremos responder no post de hoje.


Segurança e riscos

De acordo com Giddens (1991), segurança se baseia em um “equilíbrio de confiança e risco aceitável” (p.37), de tal maneira que não há uma segurança com total ausência de riscos. Para o sociólogo britânico, não existe nenhum aspecto de nossa vida do qual possamos estar totalmente certos. Pensemos um pouco sobre isso. Convido você leitor, a pensar um pouco sobre sua vida e sobre o que na sua vida você considera que estar seguro, e se pergunte sobre os possíveis riscos envolvendo estas áreas seguras. Talvez alguém diga: estou seguro de meu emprego, pois sou concursado. Aliás, a estabilidade e segurança do concurso público é uma das coisas mais procuradas pelos estudantes que buscam alcançar este tipo de trabalho. Porém, vivemos um tempo em que ocorrem privatizações de órgãos públicos, o que põe em xeque esta solidez buscada pelos "concurseiros".


"Não é que estas pessoas estejam correndo riscos e as outras estejam livres deles. Na verdade, os riscos fazem parte da existência de todos."

Também é possível que alguém pense estar seguro no seu relacionamento amoroso, mas existe sempre o risco de o relacionamento terminar, algumas vezes sem aviso prévio. Pode ocorrer de o parceiro perder o interesse, ou então se interessar por outra pessoa, ou ainda, precisar se mudar para outra cidade e isto trazer impactos no relacionamento. Também é possível que por alguma fatalidade imprevisível o parceiro ou parceira venha a falecer.


Aliás, se olharmos com sinceridade para a finitude de nossa vida, veremos que todos os que vivem estão sujeitos a possibilidade de perderem a vida. Em nossa cultura, costumamos evitar pensar sobre isso e acreditar que isto só ocorrerá daqui há muito tempo, mas na verdade pode ocorrer a qualquer momento.



Esperamos que o leitor não tenha desistido de continuar a leitura ao se ver convidado a pensar em temas tão desagradáveis quanto os riscos de que ele corre de perder pessoas e contextos que lhe são tão caros. Entretanto, como afirmou Giddens, o risco faz parte da existência. Por outro lado, para muitas pessoas, pensar nestes riscos não é novidade. Na verdade, muitos pacientes que chegam à clínica psicoterápica estão buscando ajuda para o sentimento de insegurança e ansiedade que tanto os acompanha.


Não é que estas pessoas estejam correndo riscos e as outras estejam livres deles. Na verdade, os riscos fazem parte da existência de todos. O que ocorre é que algumas pessoas parecem ter uma sensibilidade emocional maior a estes riscos, o que é sentido como ansiedade e sentimento de insegurança.


A segurança possível

Para Giddens (1991), a atitude de confiança diante dos riscos é chamada de segurança ontológica e se trata de uma experiência subjetiva, já que objetivamente os riscos estão presentes. Já os fundadores da Gestalt-Terapia (Perls, Hefferline e Goodman, 1951), no livro de fundação desta abordagem, apresentam o conceito de como a crença de que se dermos um passo, haverá um chão para nos apoiar. A linguagem metafórica usada por estes autores guarda uma riqueza em descrever a experiência de confiança ou insegurança. A cada novo passo, abandonamos o apoio de um lugar e confiamos que haverá apoio no próximo.


Na prática de psicoterapia muitos clientes nos procuram para obter fórmulas para escaparem dos riscos e conseguirem manter ou restaurar uma suposta segurança. Entretanto, não é papel do terapeuta oferecer esta ausência de riscos. Se, por um lado, os riscos não podem ser efetivamente evitados, por outro, são extremamente necessários para o crescimento do cliente.


A partir de uma compreensão gestáltica, podemos afirmar que o organismo só cresce pela assimilação da novidade (Perls, Hefferline e Goodman, 1951). Não há satisfação ou crescimento se permanecemos do mesmo jeito. A dinâmica de crescimento e renovação se dá a cada instante, a cada processo de contato. Entretanto, tentemos imaginar a importância da novidade para o crescimento com base em alguns eventos chave na vida de um sujeito. Ao nascer, a criança abre mão de uma situação em que estava consideravelmente mais protegida do que fora do ventre da mãe. Posteriormente, ao sair de casa, o adulto que opta por trabalhar para viver do próprio sustento estará assumindo riscos que o infante continua a evitar.


"No processo psicoterapêutico, o psicólogo se oferece como apoio no qual o cliente pode confiar e progressivamente, por meio de uma frustração habilidosa por parte do terapeuta..."

Por meio destas reflexões é possível agora compreendermos que o preço de se evitar os riscos é o de uma estagnação do crescimento, em que abrimos mão de elementos e relações importantes para nós com o intuito de alcançarmos uma segurança ilusória. Uma existência vivida em segurança é uma vida pouca excitante e sem intensidade.


Se, como pudemos ver, os riscos são parte da existência e necessários ao crescimento, como então ajudar quem sente falta desta confiança ou se sente demasiado inseguro para correr riscos? A psicoterapia se mostra como uma importante forma de cuidado para o desenvolvimento desta confiança. No processo psicoterapêutico, o psicólogo se oferece como apoio no qual o cliente pode confiar e progressivamente, por meio de uma frustração habilidosa por parte do terapeuta, o paciente vai experimentando situações em que pode passar a confiar nos próprios recursos. Trata-se aqui da transição de apoio no suporte ambiental e transição para o autossuporte (Andrade, 2014).


"...ao atender pacientes ansiosos e inseguros, me foi possível perceber esta inibição do excitamento e de seus sentimentos como uma forma de se protegerem, de sobreviverem em um ambiente difícil."

Diante de um ambiente arriscado, em que se expressar ou se mobilizar em direção a algo que precisamos ou queremos pode ser ameaçador, comumente inibimos nossos sentimentos e nossa energia para nos movimentarmos na busca pelo que necessitamos. A inibição do excitamento, desta energia que mobiliza o processo de contato, se configura como uma das principais características dos ajustamentos neuróticos e se mostra por meio da experiência de ansiedade (Muller-Granzotto & Muller-Granzotto, 2012; Perls, Hefferline e Goodman, 1951).


O trabalho da psicoterapia

Na clínica psicoterápica, ao atender pacientes ansiosos e inseguros, foi possível perceber esta inibição do excitamento e de seus sentimentos como uma forma de se protegerem, de sobreviverem em um ambiente difícil. Na medida em que puderam perceber como estavam se inibindo e relaxaram esta inibição, puderam abordar situações que antes lhes amedrontavam muito, com um sentimento de confiança e coragem. Como observado em Perls, Hefferline e Goodman (1951), o experimento em Gestalt-terapia tem essa riqueza de permitir que o cliente se permita algo incontrolável e novo, ainda que relativamente seguro, pois se sente confiança no terapeuta e progressivamente no próprio autossuporte. Durante o experimento, ao se permitir esta nova vivência e ao se identificar com esta capacidade de lidar com situações arriscadas, o cliente se sente mais fortalecido e encorajado.


Como vimos, os riscos são inerentes à existência. Porém, muitas vezes é necessário alienar a consciência destes riscos para viver outras figuras e experiências (Campos e Maia, 2020). Portanto, na psicoterapia, é necessário caminhar com duas estratégias. A primeira, como vimos, é fortalecer a capacidade do cliente de assumir os riscos que corre. A segunda é facilitar que o cliente consiga mudar o foco dos riscos para outras experiências. Diante de uma experiência de muita sensibilidade aos riscos é comum que os pacientes sintam ansiedade, uma experiência marcada por uma preocupação com o futuro e por uma aceleração dos pensamentos. Sendo assim, uma forma interessante de cuidar do cliente quando ele está experimentando ansiedade é facilitar a concentração nas sensações e vivências corporais, que torna mais fácil se conectar ao momento presente e relaxar o pensamento acelerado. Felizmente muitos clientes se beneficiam de atividades físicas e meditação como ferramentas de contato com o corpo e alívio da ansiedade.


Assim, o sentimento de confiança ou a sensação de segurança, na medida em que auxilia uma pessoa a permitir e suportar o risco, é saudável, favorecendo o contato com a novidade em uma nova configuração figura fundo que resulta no crescimento. A atitude de apegar-se ao que é pretensamente seguro se desdobra em uma fixação do fundo e dificulta o contato com a novidade tornando-se, portanto, algo patológico.


Importante esclarecer aqui que este texto não se propõe a criar uma norma que afirma que devemos correr todos os riscos e que se apegar ao conhecido é errado. Longe de buscar uma postura moralizante e normativa, buscamos nesse post estabelecer uma compreensão dos ajustamentos neuróticos de evitação do risco e busca da segurança, esclarecendo suas implicações. Entendemos que mesmo um ajustamento de evitação do risco pode ser o único possível em um campo difícil. Seria problemático se o sujeito estivesse continuamente evitando os riscos que são inerentes a sua vida e necessários ao seu crescimento.


Esperamos ter construído aqui um espaço que leve o leitor a pensar sobre sua relação com a busca de segurança e com os riscos de sua vida e deixar a provocação sobre as maneiras de se estabelecer cuidados que facilitem o desenvolvimento da importante confiança diante dos riscos.

Rafael Cidrão Campos - CRP 11/08944 - Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR (Tema: Experiência vivida de ansiedade em adolescentes em processo seletivo para ingresso no ensino superior), com Formação em Gestalt-terapia pelo Instituto Gestalt do Ceará - IGC e Graduação em Psicologia pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR, tendo como foco de estudos a área de ansiedade, depressão e insegurança. Atualmente coordena um grupo de estudos com o tema "Segurança e risco" no IGC - Instituto Gestalt do Ceará.

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