top of page

Violência escolar, sofrimento juvenil e crise da presença: o que a clínica contemporânea precisa compreender?

  • Foto do escritor: IGC - Instituto Gestalt
    IGC - Instituto Gestalt
  • 20 de mai.
  • 6 min de leitura
Adolescente em ambiente escolar representando sofrimento juvenil e violência escolar contemporânea

Há algo acontecendo com a juventude contemporânea que não pode mais ser compreendido apenas como “problema comportamental”, “falta de limites” ou “desajuste escolar”. O aumento das experiências de violência nas escolas, dos quadros depressivos, das automutilações, da ansiedade extrema e do suicídio juvenil parece indicar algo mais profundo: uma crise da própria experiência humana.


A violência escolar não surge apenas no ato agressivo explícito. Ela aparece também no silêncio, na indiferença, na anestesia afetiva, na incapacidade de sustentar vínculos, na perda da experiência de pertencimento e no empobrecimento progressivo da presença.

Nesse sentido, compreender o sofrimento juvenil contemporâneo exige ir além das explicações moralizantes ou exclusivamente diagnósticas. É preciso perguntar: o que está acontecendo com a experiência subjetiva dos adolescentes e jovens em nossa época?

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos mentais representam uma das principais causas de incapacidade entre adolescentes, enquanto o suicídio já figura entre as principais causas de morte nessa faixa etária.


Ao mesmo tempo, o ambiente escolar vem se tornando palco de manifestações cada vez mais intensas de sofrimento psíquico, violência relacional, isolamento emocional e perda de sentido existencial.


Não se trata apenas de um problema educacional. Trata-se de uma questão clínica, existencial e civilizatória.



A violência escolar como sintoma da crise da subjetividade contemporânea

A clínica psicológica contemporânea tem testemunhado uma transformação significativa nas formas de sofrimento psíquico. As estruturas clássicas da neurose, organizadas em torno do conflito simbólico e da repressão, passaram a coexistir com formas mais difusas de sofrimento: vazio existencial, impulsividade, dessensibilização afetiva, instabilidade identitária e empobrecimento da experiência de si.


Autores como Byung-Chul Han descrevem a contemporaneidade como uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, desempenho contínuo e hiperprodução de informação, produzindo sujeitos cansados, fragmentados e incapazes de repousar na experiência. Em vez da elaboração simbólica do sofrimento, observa-se frequentemente sua atuação imediata.


A violência escolar pode ser compreendida justamente nesse horizonte.


Ela não é apenas agressão física. Muitas vezes, constitui uma tentativa desesperada de produzir contato, reconhecimento ou presença em uma realidade marcada pela indiferença e pela saturação.


Como afirma Martin Heidegger (2015), a existência humana pode perder-se na impessoalidade cotidiana, afastando-se de uma relação mais autêntica consigo mesma e com o mundo. Em muitos adolescentes, essa perda aparece como desorientação afetiva, vazio, hiperconexão digital e dificuldade crescente de sustentar relações significativas.

Nesse contexto, a escola frequentemente se transforma em um espaço de intensificação da experiência de inadequação, comparação e invisibilidade.


Hiperconectividade e isolamento emocional entre adolescentes

O sofrimento juvenil contemporâneo não é apenas “emocional”

Existe um risco importante quando o sofrimento juvenil é reduzido a categorias simplificadas como “problemas emocionais”, “falta de inteligência emocional” ou “dificuldade comportamental”.


A questão parece mais profunda.


Muitos adolescentes não apenas sofrem: eles já não conseguem compreender claramente o que sentem. Há uma espécie de dessensibilização progressiva da experiência.

O excesso de estímulos, a hiperconectividade, a lógica do desempenho contínuo e a fragilidade dos vínculos produzem sujeitos frequentemente desconectados de si mesmos. Em vez de elaborar a experiência, muitos jovens oscilam entre anestesiamento e explosão.


Isso ajuda a compreender por que manifestações como:

  • automutilação;

  • violência escolar;

  • isolamento extremo;

  • hiperexposição digital;

  • ataques impulsivos;

  • comportamentos autodestrutivos;

  • uso compulsivo de tecnologia;

  • desesperança existencial;

não podem ser analisadas apenas como sintomas isolados.


Elas frequentemente expressam uma crise mais ampla da relação do sujeito com sua própria experiência.


Segundo dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil, adolescentes brasileiros permanecem várias horas por dia conectados às redes sociais, muitas vezes em processos contínuos de comparação, vigilância e exposição subjetiva.


O problema não é apenas tecnológico. O problema é existencial.



A fenomenologia e a compreensão do sofrimento juvenil

A fenomenologia oferece uma contribuição decisiva para compreender o sofrimento contemporâneo porque desloca a pergunta do “qual é o transtorno?” para “como este sujeito está vivendo sua experiência?”.


Essa mudança é fundamental.

Enquanto modelos excessivamente classificatórios tendem a reduzir o sofrimento a categorias diagnósticas, a fenomenologia procura compreender o modo como o mundo está sendo vivido.


Autores da psicopatologia fenomenológica, como Karl Jaspers, Ludwig Binswanger e Eugène Minkowski, demonstraram que os sofrimentos psíquicos alteram profundamente a experiência do tempo, do corpo, do outro e do sentido da existência.


Em muitos adolescentes contemporâneos, observa-se:

  • empobrecimento da experiência temporal;

  • dificuldade de sustentar projetos existenciais;

  • sensação persistente de vazio;

  • perda da experiência de pertencimento;

  • dificuldade de reconhecimento de si;

  • hiperestimulação contínua acompanhada de empobrecimento afetivo.


Como afirma KARWOWSKI (2015), a psicopatologia fenomenológica não se reduz à classificação de sintomas, mas busca compreender os modos de constituição da experiência humana em sofrimento.

“A fenomenologia busca compreender o modo de aparecer da experiência, e não apenas classificá-la exteriormente.”(KARWOWSKI, 2015)

Crise da presença e sofrimento psíquico na escola

A Gestalt-terapia diante da violência escolar e do sofrimento juvenil

A Gestalt-terapia compreende o sofrimento humano a partir das formas de contato que o sujeito estabelece consigo, com o outro e com o mundo.


Isso significa que o problema não está apenas “dentro” do indivíduo. O sofrimento emerge também nas interrupções, empobrecimentos e distorções da experiência relacional.

Nesse sentido, a violência pode ser compreendida como uma forma extrema e desorganizada de contato.


Muitas vezes, o ato violento não expressa potência, mas justamente fragilidade de elaboração experiencial.


A agressividade, na perspectiva gestáltica, não é necessariamente destrutiva. Ela corresponde originalmente à capacidade de diferenciação, aproximação e transformação do mundo. Entretanto, quando a experiência se torna empobrecida, fragmentada ou anestesiada, essa energia pode surgir de maneira caótica, impulsiva ou destrutiva.

Além disso, a Gestalt-terapia compreende que o contato também pode funcionar como evitação do contato. Isso significa que muitos comportamentos hiperativos, compulsivos ou violentos podem operar como modos de evitar experiências internas mais profundas: medo, vazio, vergonha, inadequação, desamparo ou sofrimento existencial.


A clínica gestáltica, portanto, não busca apenas controlar comportamentos. Ela procura restaurar a capacidade de presença, reconhecimento e elaboração da experiência.



A crise da presença e o empobrecimento da experiência

Um dos elementos mais importantes para compreender o sofrimento juvenil contemporâneo talvez seja aquilo que poderíamos chamar de crise da presença.

Vivemos em uma época marcada por aceleração contínua, hiperestimulação, excesso de imagens e fragmentação da atenção. Entretanto, paradoxalmente, quanto mais estímulos existem, menor parece ser a capacidade de viver experiências profundas.


A presença vai sendo substituída pela dispersão.

O encontro vai sendo substituído pela performance.

O reconhecimento vai sendo substituído pela exposição.


Nesse cenário, muitos adolescentes já não sabem exatamente quem são fora das expectativas, das comparações e das imagens que precisam sustentar.


A violência, o colapso emocional e o vazio existencial aparecem então não apenas como “patologias individuais”, mas como expressões de uma cultura que progressivamente empobrece a experiência humana.



O que a clínica contemporânea precisa oferecer?

Diante desse cenário, a clínica psicológica contemporânea não pode limitar-se a respostas rápidas, protocolos padronizados ou reduções diagnósticas simplificadoras. O sofrimento juvenil exige uma clínica capaz de sustentar presença, escuta e compreensão da experiência.


Isso implica:

  • compreender a complexidade do sofrimento contemporâneo;

  • reconhecer os efeitos subjetivos da hiperconectividade;

  • restaurar experiências de contato e reconhecimento;

  • sustentar espaços de escuta não moralizantes;

  • compreender a violência para além do ato;

  • trabalhar a reconstrução do sentido existencial;

  • favorecer processos de apropriação da própria experiência.


Mais do que controlar sintomas, trata-se de restaurar possibilidades de existência.


O IGC e a discussão sobre sofrimento juvenil contemporâneo

É justamente nesse horizonte que o IGC realizará o evento:



O encontro reunirá importantes nomes da clínica gestáltica brasileira para discutir os desafios contemporâneos do sofrimento juvenil, da violência nas escolas e das possibilidades clínicas de cuidado, presença e intervenção.


Participarão do evento:

  • Claire Cardella

  • Renata Quaglio

  • Meire Nunes Viana


O evento integra o projeto do IGC de aprofundar a discussão fenomenológica e gestáltica sobre os sofrimentos psíquicos contemporâneos, articulando clínica, cultura e experiência humana.





FAQ — Perguntas frequentes

O que caracteriza a violência escolar atualmente?

A violência escolar contemporânea não se limita às agressões físicas. Ela inclui bullying, exclusão social, humilhação digital, isolamento, violência simbólica, hipercompetitividade e formas silenciosas de sofrimento psíquico. Muitas vezes, o sofrimento aparece antes mesmo do comportamento agressivo explícito.


Existe relação entre violência escolar e sofrimento psíquico?

Sim. Diversos estudos mostram que experiências de sofrimento psíquico, desesperança, sensação de invisibilidade, isolamento emocional e dificuldade de pertencimento podem estar relacionados ao aumento de comportamentos violentos, autodestrutivos ou impulsivos entre adolescentes.


Como a Gestalt-terapia compreende a violência?

A Gestalt-terapia entende que muitos comportamentos violentos podem funcionar como formas desorganizadas de contato. Isso significa que a violência nem sempre expressa apenas destruição, mas também dificuldades profundas de reconhecimento, presença, elaboração emocional e relação com o outro.


Qual a contribuição da fenomenologia para compreender o sofrimento juvenil?

A fenomenologia busca compreender como o sujeito vive sua experiência, em vez de reduzir o sofrimento apenas a diagnósticos ou sintomas. Ela investiga alterações na experiência do corpo, do tempo, das relações e do sentido da existência.


O sofrimento juvenil contemporâneo é diferente de outras épocas?

Em muitos aspectos, sim. Atualmente observam-se formas de sofrimento marcadas por hiperconectividade, dessensibilização emocional, excesso de estímulos, fragilidade identitária, vazio existencial e dificuldade de sustentação de vínculos duradouros.


Por que discutir violência escolar na clínica psicológica?

Porque a violência escolar não é apenas um problema disciplinar ou pedagógico. Ela envolve sofrimento subjetivo, crise de pertencimento, dificuldades relacionais e questões existenciais que exigem compreensão clínica qualificada.



Referências

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.


HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2015.


JASPERS, Karl. Psicopatologia geral. São Paulo: Atheneu, 2003.


KARWOWSKI, Silverio Lucio. Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 21, n. 1, p. 62-73, 2015.


MINKOWSKI, Eugène. O tempo vivido. São Paulo: Martins Fontes, 2000.


BINSWANGER, Ludwig. Introdução à análise existencial. Belo Horizonte: Artesã, 2019.


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Saúde mental de adolescentes. Disponível em: OMS – Saúde mental de adolescentes


COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Pesquisa TIC Kids Online Brasil. Disponível em: TIC Kids Online Brasil.

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
  • Google+ - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Black Facebook Icon

Rua João Regino, 474 - Parque Manibura - Fortaleza / CE - 085 3271-1692
© 2023 by IGC - Instituto Gestalt do Ceará

bottom of page