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Atenção, repetição e interrupção: o que a Gestalt-terapia revela sobre as redes sociais

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    IGC - Instituto Gestalt
  • há 35 minutos
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O que mantém as pessoas nas redes sociais não é apenas o conteúdo que circula nelas, nem simplesmente o tempo despendido diante das telas. Há algo mais estrutural em jogo, algo que se inscreve no próprio modo como a experiência se organiza: a repetição. Não uma repetição no sentido banal de retorno do mesmo, mas uma repetição que se sustenta como forma de funcionamento, como um circuito que se reinicia continuamente sem alcançar um ponto de transformação.


Na clínica, esse mesmo padrão começa a se tornar reconhecível em outras configurações. Não necessariamente como queixa direta, mas como modo de presença: falas que retornam aos mesmos pontos sem produzir deslocamento, experiências que se esboçam mas não se desenvolvem, narrativas sobre o mesmo tema (como por exemplo, uma relação amorosa desfeita), afetos que emergem de forma breve e logo se dissipam, como se não encontrassem condições para se consolidar. O que se evidencia, nesses casos, não é apenas a interrupção da experiência, mas a sua circulação — uma repetição que não conduz à elaboração, visto que, elaborar, no sentido mais psicoterápico do termo, implica em reconhecer os movimentos repetitivos, identificar os sentimentos correlatos e os aspectos conflituosos aí implicados, adentrar a diversidade de significados pertinentes (assimilando os mais relevantes) superar ou transcender a condição conflituosa e, quando possível, optar pela mudança.


A Gestalt-terapia oferece uma via particularmente fértil para compreender o fenômeno da repetição porque desloca a atenção do conteúdo para a forma da experiência. A questão deixa de ser apenas o que está sendo vivido e passa a ser como isso se organiza no campo. E, nesse caso, o que se torna visível é uma experiência que se repete sem se transformar, que se inicia sem se completar e que, por isso mesmo, permanece em estado de reinício contínuo.


Dito de outra forma, as repetições trazem consigo um pedido que, não sendo atendido, conduzirão novamente para a repetição, solicitando que a forma seja apreendida e revele a intenção: o sentido e significado pertinente e de necessária assimilação.


A repetição como forma de captura da atenção

A repetição, enquanto dimensão da experiência, não é em si problemática. Ela está presente em processos fundamentais como aprendizagem, incorporação de hábitos e estabilização de padrões de ação. No entanto, o que se observa no contexto das redes sociais é uma modulação específica dessa repetição, que deixa de estar a serviço da assimilação e passa a operar como mecanismo de captura. Mais do que a atenção, a repetição busca capturar a atenção e transformar algum interesse em necessidade, precisando para esse fim, repetir conteúdos, evocar os mesmos ou sentimentos semelhantes e provocar a necessidade.


O gesto aparentemente simples de deslizar a tela, a atualização contínua do feed e a sucessão de conteúdos curtos produzem uma experiência que se reinicia constantemente, sem oferecer ao sujeito a possibilidade de fechamento. Cada estímulo não conduz a um desdobramento, mas a um novo início. Nesse sentido, a atenção não é apenas mobilizada — ela é mantida em suspensão, sustentada por uma expectativa que nunca se resolve completamente.


Como observa Adam Alter (2018), as plataformas digitais operam com mecanismos de reforço intermitente que mantêm o usuário engajado por meio da imprevisibilidade da recompensa. Contudo, do ponto de vista fenomenológico, o aspecto mais relevante não é apenas a recompensa em si, mas o fato de que a experiência permanece aberta, inacabada, sempre à espera de um próximo estímulo que a reative. Curiosamente, é exatamente esse o entendimento construído em torno da condição neurótica em Gestalt-terapia: as gestalten inacabadas, por não terem atingido ou resolvido a necessidade subjacente, tendem a se repetir exaustivamente, conduzindo a estados de tensão, de perda de sentido, de cansaço e vazio, afastando cada vez mais a pessoa do contato consigo mesmo e com o evento mais importante do campo.


A atenção, nesse contexto, não se fixa nem se retira. Ela permanece circulando, capturada por um campo que favorece a continuidade do movimento, mas não a continuidade da experiência.


repetição nas redes sociais e captura da atenção


Repetição sem assimilação: quando a experiência não se transforma

Na formulação clássica da Gestalt-terapia, a experiência se organiza em ciclos de contato que envolvem emergência, intensificação, ação e assimilação. É nesse último momento — a assimilação — que a experiência se integra e produz transformação. Sem esse momento, algo da experiência permanece inacabado.


Como descrevem Frederick Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman (1997), a assimilação não é um acréscimo à experiência, mas uma de suas condições fundamentais. É ela que permite que o vivido se torne significativo.


O que se observa no ambiente digital é uma forma de repetição na qual esse momento tende a ser continuamente adiado ou mesmo suprimido. A experiência se inicia, mas não encontra condições para se desenvolver; é rapidamente substituída por outra, que seguirá o mesmo destino. Nesse movimento, a repetição não conduz à transformação, mas à manutenção de um circuito fechado.


A partir de uma perspectiva fenomenológica da psicopatologia, como discutido por Karwowski (2015), o sofrimento psíquico pode ser compreendido como uma forma de organização da experiência. Nesse caso, trata-se de uma organização marcada pela dificuldade de elaboração, na qual a experiência retorna sem produzir deslocamento.

Não se trata, portanto, de ausência de experiência, mas de uma experiência que não se transforma.



Circularidade da experiência e empobrecimento

Quando a repetição não conduz à assimilação, a experiência tende a se tornar circular. Ela retorna a si mesma, não porque se aprofunda, mas porque não encontra condições de transformação. Essa circularidade não é necessariamente evidente para o sujeito, mas se manifesta como uma sensação de estagnação ou de superficialidade persistente.


Na clínica, isso pode ser observado em pacientes que relatam muito, mas elaboram pouco; que percorrem diferentes conteúdos, mas sem aprofundamento; que se mantêm em movimento, mas sem deslocamento. Por vezes, o psicoterapeuta tem a sensação de não sai do lugar, muitas vezes descrita como ter chegado a um platô, chegando ele mesmo a questionar sua competência ou a eficácia da psicoterapia. O problema não é a falta de experiência, mas a sua baixa capacidade de integração.


Como aponta Gary Yontef (1998), a awareness implica diferenciação e integração. Quando essas dimensões se fragilizam, a experiência perde densidade e tende a se tornar difusa. O que se observa, então, não é apenas vazio, mas um excesso que não se organiza.


No contexto das redes sociais, essa dinâmica é intensificada. A sucessão de estímulos produz uma multiplicidade de experiências breves, pouco diferenciadas e rapidamente substituídas. O resultado não é apenas dispersão, mas um empobrecimento progressivo da experiência, muitas vezes acompanhada por um sentimento de tédio, de ausência ou de falta e, ainda assim, uma necessidade de se permanecer ou retomar o movimento assim que possível.


repetição e fragmentação da experiência digital



Entre repetição e interrupção: a configuração do campo digital

A repetição, no contexto digital, não ocorre isoladamente. Ela se articula de forma íntima com a interrupção. Cada novo estímulo não apenas reinicia a experiência, mas interrompe o desenvolvimento da anterior. Nesse sentido, repetição e interrupção não são fenômenos distintos, mas aspectos complementares de um mesmo modo de organização da experiência. Aqui temos uma ocorrência nova: se na experiência física a interrupção traz desconforto e adoecimento, na experiência digital a interrupção "engaja" a pessoa em nova experiência do mesmo, mas sem profundidade ou diversificação dos caminhos. A experiência criativa está impedida pela interrupção, não havendo assim crescimento, mas apenas a necessidade do mesmo.


Como observa Nicholas Carr (2011), o ambiente digital favorece um funcionamento caracterizado pela alternância rápida e pela redução da profundidade. Do ponto de vista fenomenológico, isso implica uma dificuldade crescente de sustentação da experiência.

O sujeito não apenas se expõe a múltiplos estímulos; ele passa a habitar um campo no qual a continuidade da experiência se torna menos provável. A repetição mantém o movimento, enquanto a interrupção impede o aprofundamento. Entre essas duas forças, a experiência permanece em estado de suspensão.



Implicações clínicas: quando a experiência gira sem avançar

Na clínica, esse modo de organização da experiência não aparece necessariamente como queixa explícita, mas como tonalidade do funcionamento. O paciente não relata apenas dificuldade de atenção, mas uma dificuldade mais sutil de permanecer com aquilo que emerge. A experiência começa, mas não se sustenta; retorna, mas não se transforma.


Esse tipo de funcionamento exige do terapeuta um deslocamento importante. Não se trata apenas de identificar conteúdos recorrentes, mas de reconhecer a dinâmica da repetição e sua função na organização da experiência. Em muitos casos, a repetição opera como forma de evitar a intensificação da experiência, mantendo o sujeito em uma zona de baixa implicação. É assim que, como já afirmado por Perls, todo contato é também uma evitação do contato, pois insistir em um conteúdo, sem se dar conta do tema e das significações aí implicadas, impede a percepção da forma, da necessidade (e portanto de sua possibilidade de satisfação) e da articulação com sentidos mais profundos dessa experiência.


A partir da Gestalt-terapia, o trabalho clínico não consiste em interromper a repetição de forma direta, mas em criar condições para que a experiência possa se desenvolver para além dela. Isso implica sustentar aquilo que tende a se reiniciar, acompanhar a experiência em sua emergência e favorecer sua diferenciação.


Trata-se, portanto, de um trabalho de aprofundamento da experiência, no qual o objetivo não é eliminar a repetição, mas permitir que ela possa, em algum momento, se transformar.



Conclusão

As redes sociais não apenas capturam a atenção, mas participam da organização de um campo no qual a experiência se estrutura em torno da repetição e da interrupção. Quando a repetição não conduz à assimilação, a experiência se torna circular e perde sua capacidade de transformação.


A Gestalt-terapia, ao privilegiar a análise da experiência em sua dinâmica, oferece uma chave importante para compreender esse fenômeno. Mais do que reduzir o uso ou corrigir comportamentos, trata-se de reconhecer como a experiência se organiza — e de criar condições para que ela possa, novamente, se transformar.


Talvez uma das tarefas centrais da clínica contemporânea seja justamente essa: acompanhar a experiência até o ponto em que ela deixe de girar sobre si mesma e possa, finalmente, se deslocar.




FAQ - Perguntas frequentes

Por que as redes sociais geram repetição?

Porque são estruturadas para manter a experiência em reinício constante, por meio de estímulos contínuos e imprevisíveis.


O que significa repetição sem assimilação?

É quando a experiência se repete sem produzir transformação, permanecendo em estado de reinício.


Qual a diferença entre repetição e elaboração?

A repetição mantém a experiência em circulação; a elaboração permite que ela se transforme e produza sentido.


Isso é um tipo de vício?

Nem sempre. Pode ser um modo de organização da experiência que, em alguns casos, evolui para padrões compulsivos.


Como isso aparece na clínica?

Como dificuldade de aprofundamento, repetição de temas e sensação de estagnação.


A repetição é sempre negativa?

Não. Ela pode ser fundamental para aprendizagem. Torna-se problemática quando não conduz à assimilação.


Qual o papel da atenção nesse processo?

A atenção é mantida em movimento contínuo, impedindo a estabilização da experiência.


O que a Gestalt-terapia observa de diferente?

Observa a forma como a experiência se organiza, e não apenas o comportamento.


Como trabalhar isso na clínica?

Sustentando a experiência e favorecendo sua continuidade e diferenciação. Apontando para o paciente o gesto (movimento) repetitivo e solicitando atenção à forma.


Existe relação com ansiedade?

Sim, frequentemente a repetição funciona como forma de evitar experiências mais intensas.


A tecnologia é a causa desse problema?

Não exclusivamente, mas participa da configuração do campo que favorece esse modo de funcionamento.


Como diferenciar repetição de resistência?

A repetição pode ser uma forma de ajustamento, enquanto a resistência implica uma dinâmica relacional mais específica.


Esse fenômeno é novo?

Não completamente, mas se intensifica no contexto contemporâneo.


O que muda na escuta clínica?

O foco passa a ser a dinâmica da experiência, e não apenas seu conteúdo.


Qual o risco de não abordar isso?

Manter o paciente em um ciclo de repetição sem transformação.



Referências

ALTER, Adam. Irresistível. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

CARR, Nicholas. A geração superficial. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

KARWOWSKI, Silverio. Psicopatologia fenomenológica, 2015.

PERLS, Frederick; HEFFERLINE; GOODMAN. Gestalt-terapia. 1997.

YONTEF, Gary. Processo, diálogo e awareness. 1998.

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