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Entre estímulo e presença: Gestalt-terapia e os impasses do contato na experiência digital

  • Foto do escritor: IGC - Instituto Gestalt
    IGC - Instituto Gestalt
  • 11 de abr.
  • 6 min de leitura

Há algo que começa a aparecer com frequência crescente na clínica, mas que nem sempre se apresenta de forma direta ou nomeada como tal. Em vez de queixas explícitas sobre tecnologia, o que chega são experiências que parecem, à primeira vista, desconectadas entre si: dificuldade de concentração, sensação de mente constantemente mobilizada, ansiedade sem um objeto claramente definido, e, em muitos casos, uma experiência difusa de vazio que precisa ser rapidamente preenchida.


Nesses contextos, o uso de dispositivos digitais raramente aparece como causa evidente. Ele surge, mais frequentemente, como resposta. Como algo que organiza, que ocupa, que regula. O celular não inaugura o problema — ele entra como solução possível dentro de um campo já tensionado.


É por isso que a questão clínica não pode ser reduzida à ideia de “uso excessivo de telas”. A pergunta mais decisiva é outra: o que está acontecendo com a experiência quando o uso de tecnologia se torna necessário para sustentá-la?


A partir de uma perspectiva fenomenológica e gestáltica, essa questão nos conduz a um ponto central: a qualidade do contato. Não se trata apenas de quanto estímulo está presente, mas de como a experiência se organiza no campo entre organismo e ambiente. E é justamente nesse ponto que começam a aparecer alguns impasses característicos da experiência contemporânea.


Contato e presença: o ponto de partida da experiência

Na Gestalt-terapia, a experiência não é compreendida como um processo interno isolado, mas como algo que se constitui no contato. É no encontro entre organismo e ambiente que percebemos, sentimos, organizamos significados e transformamos aquilo que vivemos. Esse processo implica uma dinâmica contínua, na qual algo emerge como figura, se desenvolve, encontra algum tipo de resolução e retorna ao fundo, dando lugar a novas experiências.


A vida psicológica se organiza em ciclos de formação e satisfação de necessidades no campo organismo-ambiente

Esse movimento, no entanto, não é instantâneo. Ele exige tempo, continuidade e uma certa sustentação da atenção. Para que uma experiência se torne significativa, é necessário que possamos permanecer com ela o suficiente para que seus contornos se definam, suas nuances se revelem e seus desdobramentos possam ser acompanhados.


Como afirmam Frederick Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman (1997), a vida psicológica se organiza em ciclos de formação e satisfação de necessidades no campo organismo-ambiente. Esses ciclos pressupõem um certo grau de continuidade da experiência. Quando essa continuidade é preservada, há possibilidade de assimilação e integração. Quando ela é interrompida de forma recorrente, algo se fragiliza na própria organização da experiência.


experiência de contato sustentado e presença


Hiperestimulação e campo digital: quando a experiência não se sustenta

O ambiente digital introduz uma configuração específica no campo da experiência, marcada por um fluxo contínuo e intenso de estímulos. Notificações, alternância rápida de conteúdos, múltiplas abas abertas simultaneamente, fluxos intermináveis de informação — tudo isso compõe um cenário no qual a atenção é constantemente convocada a se deslocar.


Esse tipo de organização do campo não atua apenas no nível do comportamento observável, mas incide diretamente sobre a forma como a experiência se estrutura. A cada momento em que algo começa a ganhar contorno — uma ideia, uma sensação, uma emoção — há imediatamente a possibilidade de interrupção. O deslocamento da atenção deixa de ser exceção e passa a ser a regra.


Com o tempo, isso tende a produzir uma dificuldade crescente de sustentar a experiência por tempo suficiente para que ela se desenvolva. Não se trata apenas de distração, mas de uma reorganização mais ampla do modo de funcionamento. Como observa Nicholas Carr (2011), o ambiente digital favorece um tipo de processamento marcado pela fragmentação e pela dificuldade de manter processos de atenção mais prolongados.


Na linguagem da Gestalt-terapia, poderíamos dizer que há uma aceleração na alternância figura-fundo, na qual as figuras emergem e se dissolvem com rapidez, sem que haja tempo suficiente para sua assimilação. O resultado não é apenas uma experiência mais rápida, mas uma experiência que tende a perder densidade e continuidade.


hiperestimulação digital e fragmentação da atenção
A multiplicidade de aparelhos para contado produz uma ilusão de facilidade e profundidade do contato. A questão é: os aparelhos e seus modos de contato realmente produzem um bom contato?


Dessensibilização: quando a experiência perde espessura

Um dos efeitos mais importantes desse modo de funcionamento é a dessensibilização. Em um primeiro momento, pode parecer paradoxal que um ambiente saturado de estímulos produza uma redução da sensibilidade. No entanto, quando consideramos a dinâmica da experiência, esse fenômeno se torna mais compreensível.


Sentir não é apenas reagir a estímulos. Sentir implica acompanhar o desenvolvimento de uma experiência, permitir que ela se desdobre, reconhecer suas variações e integrar seus efeitos. Esse processo exige tempo e uma certa estabilidade da atenção.


Quando a experiência é constantemente interrompida, esse movimento não se completa. O que se produz, então, não é intensidade, mas superficialidade. Há muitos estímulos, mas pouca assimilação; muitas mudanças, mas pouca elaboração; muitas experiências iniciadas, mas poucas efetivamente vividas até o fim.


Na perspectiva gestáltica, isso pode ser compreendido como uma dificuldade na formação de figuras claras e no fechamento de gestalts. Como destaca Serge Ginger (1995), o contato envolve não apenas o encontro com o estímulo, mas também sua assimilação e integração. Quando esse processo é interrompido de forma recorrente, a experiência tende a perder espessura, tornando-se mais rasa e menos significativa.


dessensibilização e redução da experiência emocional
Muitas vezes a presença nas telas conduz a uma experiência de vazio, mas não identificadamente ligado a elas.


Impasses do contato: a presença como tarefa clínica

Esses processos começam a aparecer na clínica não necessariamente como queixas sobre tecnologia, mas como modos de funcionamento que atravessam diferentes áreas da experiência. A dificuldade de permanecer em uma situação, a necessidade de constante estimulação, a baixa tolerância ao silêncio e a sensação de que as experiências não se aprofundam são manifestações frequentes desse tipo de organização.


Nesses casos, o ambiente digital não pode ser compreendido apenas como um fator externo, mas como parte de um campo que sustenta e intensifica esse modo de funcionamento. A presença, que poderia ser tomada como algo dado, passa a se configurar como uma tarefa — algo que precisa ser reconstruído no processo terapêutico.


Como propõe Jorge Ponciano Ribeiro (2012), o trabalho clínico em Gestalt-terapia envolve a ampliação da awareness, isto é, a capacidade de perceber, sustentar e acompanhar a experiência no aqui-e-agora. Isso implica, muitas vezes, criar condições para que o sujeito possa permanecer onde antes se retirava, sustentando experiências que, até então, eram rapidamente interrompidas.



Para além do comportamento: uma questão de experiência

Diante desse cenário, torna-se tentador abordar o problema em termos de controle do comportamento, como se a solução estivesse apenas em reduzir o tempo de uso de dispositivos. Embora essa dimensão não seja irrelevante, ela é claramente insuficiente para dar conta da complexidade do fenômeno.


A questão central não diz respeito apenas ao quanto usamos tecnologia, mas à forma como a experiência se organiza nesse campo. Como observa Sherry Turkle (2017), a conectividade constante pode produzir uma sensação de companhia, mas frequentemente à custa da profundidade das relações e da experiência subjetiva.


A contribuição da Gestalt-terapia, nesse contexto, não está em opor-se à tecnologia, mas em recolocar no centro da reflexão a qualidade do contato. Trata-se de compreender como o campo digital participa da organização da experiência e quais são as possibilidades de reconfiguração desse campo no trabalho clínico.



Conclusão

Entre estímulo e presença, estabelece-se uma tensão que atravessa de forma cada vez mais evidente a experiência contemporânea. Não se trata de eliminar os estímulos, nem de propor um retorno a uma condição anterior idealizada, mas de reconhecer os efeitos que esse modo de organização do campo produz sobre a experiência.


Talvez o desafio clínico não seja apenas ajudar alguém a “desconectar-se”, mas a recuperar a capacidade de sustentar a experiência o suficiente para que ela possa se desenvolver, ganhar forma e encontrar sentido. É nesse movimento — discreto, mas fundamental — que o trabalho com o contato se torna novamente central.


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FAQ - Perguntas frequentes


O que é contato na Gestalt-terapia?

Contato é o processo pelo qual o indivíduo se relaciona com o ambiente, percebendo, sentindo e atribuindo significado à experiência.


Como a tecnologia afeta o contato?

A hiperestimulação digital pode dificultar a sustentação da atenção e da experiência, interrompendo o desenvolvimento do contato.


O que é dessensibilização na experiência digital?

É a redução da capacidade de sentir e assimilar experiências, decorrente da exposição constante a múltiplos estímulos.


Presença é o mesmo que atenção?

Não exatamente. A atenção é um componente da presença, mas a presença envolve uma abertura mais ampla à experiência, incluindo aspectos emocionais e corporais.



Referências

CARR, Nicholas. A geração superficial. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

GINGER, Serge; GINGER, Anne. Gestalt: uma terapia do contato. São Paulo: Summus, 1995.

PERLS, Frederick; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.

RIBEIRO, Jorge Ponciano. Gestalt-terapia: refazendo um caminho. São Paulo: Summus, 2012.

TURKLE, Sherry. A conversa necessária. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

YONTEF, Gary. Processo, diálogo e awareness. São Paulo: Summus, 1998.


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