top of page

Expressão, corpo e simbolização: por que recursos expressivos importam na psicoterapia




Antes que alguém diga “estou com medo”, o medo já aconteceu corporalmente. A respiração pode ter se alterado, determinados grupos musculares podem ter se contraído, o olhar pode ter começado a procurar referências no ambiente e aquilo que estava ao redor pode ter adquirido uma qualidade ameaçadora. Somente depois — algumas vezes muito depois — essa experiência poderá ser reconhecida, diferenciada e chamada de medo. O mesmo acontece com muitas outras experiências humanas: antes que consigamos explicar uma perda, já fomos afetados por ela; antes de formularmos conscientemente que uma situação nos ameaça, nosso corpo pode ter começado a se afastar; antes de reconhecermos racionalmente uma relação como segura, podemos perceber que respiramos de outra maneira, que nossos movimentos se tornam mais espontâneos ou que deixamos de vigiar continuamente o ambiente.


Essa precedência não deve ser entendida simplesmente como uma diferença cronológica entre uma reação corporal que ocorre primeiro e um pensamento que surge depois. A questão é mais radical. A experiência humana não começa como um conteúdo mental completamente constituído que posteriormente é comunicado pelo corpo ou traduzido em palavras. Ela se constitui no encontro entre a pessoa e o mundo, e esse encontro é desde o início corporal, perceptivo, afetivo e relacional. A linguagem verbal oferece posteriormente uma possibilidade extraordinária de diferenciação e elaboração daquilo que vivemos, mas não constitui a origem de toda experiência.


Essa afirmação possui consequências importantes para a psicoterapia. Se a experiência se constitui corporalmente, nem tudo aquilo que é vivido estará imediatamente disponível para ser narrado. Há acontecimentos que reconhecemos e conseguimos contar com relativa facilidade; outros permanecem durante muito tempo como sensações vagas, tensões, tendências de movimento, imagens recorrentes, alterações do ritmo corporal ou modos de estabelecer relações cuja significação ainda não conseguimos compreender. Entre viver alguma coisa e conseguir dizê-la existe, portanto, um campo de experiência que não pode ser reduzido à ausência de palavras. É justamente nesse campo que corpo, gesto, imagem, movimento e criação podem adquirir particular relevância clínica.


Mãos em movimento representando a expressão corporal que antecede a linguagem verbal.



O corpo não traduz a experiência: participa de sua constituição

Uma concepção ainda bastante presente no senso comum — e, algumas vezes, também na compreensão psicológica — imagina o funcionamento humano como uma sequência relativamente linear. Alguma coisa aconteceria no mundo, a mente perceberia e interpretaria esse acontecimento, dessa interpretação surgiria uma emoção e, finalmente, o corpo manifestaria externamente aquilo que teria ocorrido no interior da pessoa. Nessa perspectiva, o corpo funciona quase como um painel no qual aparecem sinais de processos psicológicos que aconteceram em outro lugar. A tensão muscular indicaria ansiedade; determinada postura expressaria insegurança; uma alteração respiratória seria consequência corporal de um estado emocional previamente constituído.


A fenomenologia questiona precisamente essa separação entre uma interioridade psicológica e um corpo encarregado de expressá-la. Em Fenomenologia da percepção, Maurice Merleau-Ponty (1945/2018) desenvolve uma compreensão da existência na qual corpo, percepção e mundo não podem ser separados sem que se perca aquilo que caracteriza a experiência vivida. Não somos consciências que primeiro interpretam a realidade para depois utilizar um corpo como instrumento de ação. Somos corporalmente situados desde o início. É por meio dessa corporeidade que as distâncias aparecem como próximas ou longínquas, os objetos como alcançáveis ou inacessíveis, as situações como convidativas ou ameaçadoras e as outras pessoas como presenças diante das quais podemos nos aproximar, recuar, proteger-nos ou permanecer.


Quando Merleau-Ponty afirma que o corpo é nosso meio geral de ter um mundo, não está apenas atribuindo maior importância às sensações corporais. Está recusando a própria possibilidade de compreender a experiência humana pela divisão entre uma consciência interior e um corpo exterior. O corpo vivido não recebe passivamente informações para que uma mente posteriormente lhes atribua significado; ele participa da própria constituição de um mundo significativo. Perceber é já estar implicado numa situação, orientado para possibilidades e afetado por aquilo que se apresenta.


Essa perspectiva modifica profundamente o estatuto clínico da corporeidade. Uma pessoa que se contrai diante de determinada situação não possui necessariamente primeiro um pensamento claramente formulado que posteriormente provoca a contração. O próprio fechamento corporal pode constituir uma dimensão do modo como aquela situação está sendo vivida. Da mesma maneira, afastar-se, aproximar-se, interromper um movimento, baixar a voz, desviar o olhar ou prender a respiração não são apenas manifestações externas de conteúdos internos previamente constituídos: são modos de estar em uma situação e, portanto, dimensões da própria experiência que a psicoterapia procura compreender.



Antes da palavra existe uma experiência

A linguagem verbal constitui uma das mais complexas possibilidades humanas de organização da experiência. Por meio dela podemos compartilhar acontecimentos que não estão presentes, estabelecer relações entre passado e futuro, formular hipóteses, construir narrativas, nomear emoções e produzir sentidos sobre aquilo que vivemos. A possibilidade de dizer “estou com medo”, por exemplo, já implica uma importante diferenciação: alguma coisa que anteriormente poderia ser vivida como uma perturbação difusa passa a ser reconhecida, nomeada e situada numa relação entre quem sente e aquilo que é sentido.

Entretanto, a capacidade de falar sobre uma experiência não significa que a experiência tenha começado na palavra. Desde muito cedo estabelecemos relações com o mundo antes de dominar uma linguagem verbal complexa. Reconhecemos presenças, reagimos a distâncias, procuramos contato, experimentamos conforto e desconforto, antecipamos acontecimentos e desenvolvemos modos particulares de responder às situações. A aquisição da linguagem transforma profundamente essas experiências e abre possibilidades inteiramente novas de elaboração, mas encontra um organismo que já percebe, move-se, deseja, teme e estabelece relações.


Essa condição não desaparece na vida adulta. Continuamos experimentando inúmeras situações antes de conseguirmos formulá-las conceitualmente. Podemos entrar em um ambiente e perceber que “alguma coisa está estranha” sem identificar imediatamente o que produziu essa impressão. Podemos encontrar alguém e perceber uma mudança em nosso estado corporal antes de formular qualquer avaliação consciente: interrompemos uma frase, mudamos discretamente de posição, aceleramos ou diminuímos o ritmo da fala, hesitamos entre nos aproximar e recuar. Somente posteriormente, talvez ao refletirmos sobre o encontro, conseguimos perguntar o que aconteceu conosco naquele momento e transformar em narrativa algo que inicialmente se apresentou como modificação da própria maneira de estar na situação.


A psicoterapia trabalha frequentemente nesse intervalo entre uma experiência que já está acontecendo e a possibilidade de reconhecê-la de maneira suficientemente diferenciada. O paciente sabe que algo aconteceu, mas ainda não sabe exatamente o quê. Existe uma sensação, uma tendência de movimento, uma imagem recorrente ou uma alteração corporal, mas ainda não há uma narrativa capaz de organizar o vivido. Nesses momentos, exigir imediatamente uma explicação pode produzir mais discurso sem produzir necessariamente mais contato. A pessoa pode aprender a formular respostas psicologicamente plausíveis e, ainda assim, permanecer distante daquilo que efetivamente experimenta.



O problema clínico do “não sei”

Poucas respostas são tão frequentes numa psicoterapia quanto “não sei”. Diante de perguntas aparentemente simples — “o que você sentiu?”, “o que aconteceu naquele momento?”, “o que você gostaria de fazer?” — o paciente pode permanecer alguns segundos em silêncio e responder que não sabe. A tentação do terapeuta é, muitas vezes, considerar que existe uma resposta já constituída que precisa ser encontrada e, por isso, insistir na pergunta, reformulá-la ou oferecer possibilidades que ajudem a pessoa a identificar o conteúdo escondido.


Esse “não sei”, entretanto, pode possuir naturezas muito diferentes. Em determinadas situações, pode expressar esquiva, receio de exposição, dificuldade de confiar ou tentativa de interromper uma investigação percebida como ameaçadora. Em outras, porém, pode constituir uma descrição rigorosa da experiência presente: a pessoa realmente ainda não sabe. Algo acontece, mas ainda não existe diferenciação suficiente para que possa ser reconhecido conceitualmente. A experiência não está ausente; está presente de uma forma que ainda não se tornou claramente disponível à consciência reflexiva e à linguagem.

Perguntar repetidamente “o que você está sentindo?” pode então transformar-se inadvertidamente numa exigência para que o paciente produza uma resposta que ainda não possui. Uma alternativa clínica consiste em permanecer mais próximo daquilo que efetivamente está disponível, deslocando a investigação da explicação para a descrição. Em vez de exigir imediatamente uma nomeação, o terapeuta pode perguntar o que a pessoa percebe naquele momento, se alguma região do corpo se destaca, se algo muda quando determinado assunto é mencionado ou o que acontece quando ela permanece alguns instantes junto daquela sensação. A pergunta deixa de procurar uma resposta correta e passa a favorecer maior discriminação da experiência.


Essa mudança metodológica parece pequena, mas possui implicações importantes. Antes de descobrir por que algo acontece, talvez seja necessário reconhecer como acontece. A passagem do “não sei” para alguma forma de reconhecimento não precisa ocorrer por meio de uma interpretação oferecida pelo terapeuta. Pode acontecer lentamente, à medida que aspectos inicialmente indistintos começam a adquirir contornos, relações e diferenças.




Da experiência indiferenciada à formação de uma figura

A Gestalt-terapia oferece uma linguagem particularmente fecunda para compreender esse processo porque concebe a experiência como uma organização dinâmica de figura e fundo. Aquilo que vivemos não nos chega como uma coleção de sensações, pensamentos e emoções independentes que posteriormente seriam reunidos pela consciência. A experiência se organiza continuamente em configurações nas quais determinados aspectos adquirem relevância, tornam-se figura e orientam nossa relação com a situação, enquanto inúmeros outros permanecem no fundo.


Uma sensação inicialmente vaga pode, no decorrer de uma sessão, tornar-se progressivamente mais definida. Aquilo que a pessoa descrevia apenas como um desconforto pode começar a ser percebido como uma pressão no peito. Ao permanecer em contato com essa sensação, ela talvez perceba que a pressão aumenta quando fala de determinada relação. A partir daí pode surgir uma tendência de afastamento, uma imagem, uma lembrança ou uma emoção que anteriormente não estava claramente disponível. Em algum momento, uma palavra pode aparecer e reunir aspectos da experiência que até então permaneciam dispersos. O que inicialmente era apenas “alguma coisa estranha” passa a possuir uma configuração mais nítida.


O aspecto clinicamente importante desse processo é que a forma não precisa ser antecipadamente fornecida pelo terapeuta. Ao contrário, a intervenção pode criar condições para que uma organização emerja da própria experiência. A tarefa terapêutica não consiste necessariamente em completar rapidamente aquilo que está incompleto, mas em sustentar suficientemente o processo para que aquilo que ainda não possui forma possa adquiri-la. Isso exige tolerar certa indeterminação, resistir à tentação de explicar prematuramente e permanecer atento às pequenas transformações que acontecem no modo como a pessoa percebe, sente e se relaciona com aquilo que emerge.



Expressar não é simplesmente colocar para fora

A própria palavra “expressão” pode induzir a uma compreensão equivocada. Frequentemente imaginamos que expressar significa exteriorizar algo que já estaria pronto dentro da pessoa: primeiro haveria um sentimento ou conteúdo psicológico completamente constituído e, posteriormente, esse conteúdo seria colocado para fora por meio da fala, do gesto, do desenho ou de alguma outra linguagem. A expressão funcionaria, nesse modelo, como transporte de um significado de um interior privado para um exterior compartilhado.


Entretanto, expressar também pode significar produzir uma forma por meio da qual a própria experiência se torna reconhecível. Ao desenhar, modelar, movimentar-se, escrever ou organizar objetos no espaço, uma pessoa não está necessariamente representando algo que já conhecia. Pode descobrir alguma coisa no próprio ato de produzir. Escolhe uma cor sem saber exatamente por quê, inicia um movimento, interrompe-o, cobre uma parte da folha, modifica uma forma, aproxima dois objetos e, ao observar aquilo que surgiu, percebe uma relação que anteriormente não conseguia formular.


Nesse caso, a produção não é apenas representação de uma experiência anterior: participa da constituição de uma nova possibilidade de experiência. Aquilo que era vivido de modo difuso torna-se perceptível porque adquiriu uma forma com a qual agora é possível estabelecer relação. A pessoa pode observar o que produziu, aproximar-se, afastar-se, modificar, destruir, reconstruir ou nomear aspectos que antes não estavam disponíveis. Surge no campo terapêutico algo que pode ser compartilhado entre terapeuta e paciente sem que precise ser imediatamente reduzido a uma explicação.


É justamente essa possibilidade que confere relevância clínica aos recursos expressivos. Eles não são importantes porque permitem ao terapeuta acessar um conteúdo escondido, mas porque podem favorecer condições nas quais a própria pessoa reconheça dimensões de sua experiência que anteriormente não possuíam forma suficientemente definida.



Da expressão à simbolização

A relação entre expressão e simbolização torna-se mais clara quando compreendemos simbolizar não como uma simples substituição de uma coisa por outra, mas como a possibilidade de uma experiência adquirir uma forma que permita estabelecer relação com ela. Quando alguém está inteiramente tomado pela angústia, por exemplo, pode existir pouca diferenciação entre a pessoa e aquilo que sente. A angústia não aparece como uma experiência entre outras; organiza todo o campo e parece coincidir com a própria existência naquele momento.


Quando essa experiência consegue adquirir alguma forma — uma palavra, uma imagem, um gesto, uma configuração espacial ou uma produção material — ocorre uma mudança importante. A experiência não desaparece, mas já pode ser percebida como algo que acontece à pessoa e com o qual ela pode estabelecer relação. Há uma diferença significativa entre estar inteiramente capturado por um estado e poder reconhecê-lo, mesmo que provisoriamente, como “algo que está acontecendo comigo”. Essa pequena distância não significa afastamento defensivo; pode representar justamente uma condição para maior apropriação.


Uma produção expressiva pode, nesse sentido, introduzir uma espécie de terceiro elemento no encontro terapêutico. Terapeuta e paciente deixam de depender exclusivamente de uma conversa sobre algo invisível e podem dirigir sua atenção para uma forma que passou a participar concretamente da situação. Ao observar uma imagem, uma modelagem ou uma disposição de objetos, novas perguntas tornam-se possíveis: como é olhar para aquilo, que parte chama mais atenção, o que provoca vontade de modificar, o que acontece corporalmente ao aproximar-se de determinado elemento. O objetivo não é descobrir o significado correto da produção, mas permitir que a relação com ela continue produzindo diferenciações e novos sentidos.


Pessoa percebendo suas próprias sensações corporais durante um processo psicoterapêutico.


A materialidade como dimensão da experiência terapêutica

Os recursos expressivos introduzem ainda uma característica que merece atenção específica: a materialidade. Uma fala acontece no tempo e, depois de pronunciada, permanece principalmente como memória da interação. Uma produção material, por outro lado, pode continuar presente diante da pessoa. Um desenho pode ser observado novamente; uma forma de argila pode ser girada, comprimida, deformada ou reconstruída; uma colagem pode receber novos elementos; objetos colocados sobre uma mesa podem ser aproximados, afastados ou reorganizados. Essa permanência cria possibilidades particulares de experimentação.


Podemos imaginar, por exemplo, uma pessoa que descreva durante várias sessões sentir-se responsável por todos os membros de sua família. Ela conhece racionalmente esse padrão, consegue identificar suas consequências e talvez já tenha discutido repetidamente a necessidade de estabelecer limites. Em determinado momento, ao representar as relações familiares por meio de objetos sobre uma mesa, coloca sua própria peça no centro e distribui todas as demais ao redor. Ao observar a configuração, percebe algo que a descrição verbal não havia tornado tão evidente: não existe espaço em torno de si. A experiência abstrata de “não ter espaço” adquiriu uma configuração perceptível.

O terapeuta não precisa fornecer a interpretação, porque a disposição material já permite uma nova relação com o problema. Pode perguntar se existe outro lugar onde a pessoa gostaria de posicionar sua peça ou o que acontece quando aumenta a distância entre alguns objetos. Mover uma peça alguns centímetros evidentemente não resolverá um conflito familiar, mas permite que uma possibilidade anteriormente pensada apenas de maneira abstrata seja percebida visualmente e experimentada corporalmente. Existe uma diferença entre pensar que se deveria estabelecer distância e experimentar, mesmo simbolicamente, como é produzir essa distância.


A materialidade permite, portanto, ensaiar possibilidades. A pessoa pode alterar uma configuração, observar seus efeitos e eventualmente desfazer a mudança. Esse caráter experimental constitui uma das razões pelas quais recursos expressivos podem enriquecer o trabalho clínico: aquilo que parecia existir apenas como estado interno ou narrativa pode tornar-se uma configuração com a qual é possível interagir.



Recursos expressivos não são atalhos para uma verdade escondida

A potência evocativa das imagens e produções artísticas também cria um dos maiores riscos de seu uso clínico: a tentação de transformá-las em instrumentos de decodificação. A ideia de que determinadas cores, formas, posições ou elementos gráficos possuiriam significados psicológicos universais oferece uma aparente segurança interpretativa. O terapeuta poderia olhar uma produção e descobrir algo sobre a pessoa que ela própria ainda desconheceria.


O problema é que essa operação frequentemente substitui a singularidade da experiência por um catálogo previamente estabelecido de significados. Uma mesma cor pode possuir sentidos inteiramente distintos para pessoas diferentes e, mais do que isso, pode modificar seu significado para a mesma pessoa ao longo de uma única sessão. Uma forma inicialmente percebida como ameaçadora pode, depois de algum tempo de exploração, ser reconhecida como proteção. Um espaço vazio pode ser experimentado como abandono em determinado momento e como liberdade em outro. O sentido não está depositado no objeto esperando ser descoberto por um especialista.


Numa perspectiva fenomenológica, o significado emerge na relação entre a pessoa, aquilo que produziu, sua história, a situação terapêutica e o modo como a experiência se desenvolve no presente. Por isso, a descrição deve preceder a interpretação. Em vez de perguntar imediatamente o que uma imagem significa, o terapeuta pode investigar o que a pessoa vê, onde seu olhar permanece, que elemento parece mais presente, que reação corporal acontece diante da produção e como essa relação se modifica à medida que ela permanece em contato com aquilo que criou.


Essa diferença metodológica é fundamental porque preserva a produção como campo de descoberta. O recurso expressivo deixa de funcionar como teste disfarçado e passa a constituir uma possibilidade de investigação compartilhada.



Recursos expressivos como experimentos clínicos

Na Gestalt-terapia, muitos recursos expressivos podem ser compreendidos a partir da noção de experimento. Um experimento não é uma atividade previamente prescrita para produzir determinado efeito psicológico, mas uma situação construída no encontro terapêutico com o objetivo de tornar mais disponível algum aspecto da experiência que começa a emergir. Pode envolver desenho, movimento, diálogo entre posições, modelagem, dramatização, escrita, objetos, imagens ou simplesmente uma modificação da postura corporal. O meio utilizado é menos importante do que a experiência que se pretende investigar.


Se um paciente relata repetidamente que deseja aproximar-se de alguém, mas recua sempre que essa possibilidade se apresenta, por exemplo, o terapeuta pode convidá-lo a perceber corporalmente esse movimento. Em vez de continuar apenas discutindo as razões pelas quais se aproxima ou se afasta, pode-se explorar como essa dinâmica acontece: talvez experimentar literalmente um pequeno movimento de aproximação e observar em que momento surge tensão, vontade de interromper, impulso para recuar, alguma imagem, lembrança ou mudança na respiração. O comportamento que anteriormente era apenas explicado passa a poder ser observado enquanto começa a acontecer.


O experimento não pretende reproduzir artificialmente a realidade nem obrigar o paciente a ultrapassar seus limites. Seu valor está em desacelerar um processo que habitualmente acontece de maneira automática e torná-lo perceptível. Aquilo que se repetia sem ser claramente reconhecido pode adquirir figura, permitindo que novas possibilidades sejam percebidas. É nesse sentido que os recursos expressivos deixam de ser acessórios da sessão e podem tornar-se instrumentos rigorosos de investigação clínica.



O recurso não substitui a relação

Nenhum material possui propriedades terapêuticas independentes do contexto no qual é utilizado. Argila não é terapêutica por si mesma; desenhar não é necessariamente terapêutico; movimentar-se ou dramatizar uma situação tampouco garantem elaboração. A potência desses recursos depende do campo em que são introduzidos, da relação estabelecida, da capacidade do terapeuta de acompanhar aquilo que emerge e das condições da pessoa para entrar em contato com a experiência sem ser excessivamente invadida por ela.


Um recurso inadequadamente proposto pode produzir constrangimento, exposição ou intensificação emocional sem condições suficientes de integração. Também pode transformar a sessão em uma sequência de atividades na qual a técnica ocupa o lugar que deveria pertencer à relação terapêutica. Por isso, talvez a pergunta clinicamente mais fecunda não seja “qual técnica posso utilizar com este paciente?”, mas “o que está acontecendo neste encontro e de que maneira poderíamos nos aproximar dessa experiência?”.


Às vezes, essa aproximação poderá acontecer por meio de um desenho; em outras situações, por uma mudança corporal, uma imagem, uma composição espacial ou uma dramatização. E, frequentemente, continuará acontecendo por meio de uma conversa. Uma clínica ampliada não abandona a palavra nem transforma todas as sessões em experiências expressivas. Ela simplesmente não pressupõe antecipadamente que uma única linguagem será capaz de acompanhar todas as formas pelas quais o sofrimento e as possibilidades de transformação podem aparecer.



Da corporeidade à Arteterapia

É nesse horizonte que a Arteterapia encontra um de seus fundamentos clínicos mais relevantes. Se a experiência humana é originalmente corporal, perceptiva e relacional e nem sempre está imediatamente disponível à linguagem verbal, os materiais e processos artísticos podem constituir outras vias para sua formação, diferenciação e simbolização. Sua importância não precisa ser justificada pela ideia simplificada de que algumas pessoas “não gostam de falar” ou de que atividades artísticas tornam a psicoterapia mais agradável. A questão é mais profunda: o processo criativo introduz modos específicos de relação com a experiência por meio da materialidade, do gesto, da transformação, da composição, da escolha, da destruição e da reconstrução.


Edith Kramer enfatizou historicamente o potencial terapêutico do próprio fazer artístico, enquanto autores como Shaun McNiff contribuíram para ampliar a compreensão das imagens e dos processos artísticos como participantes de uma experiência de investigação e transformação. Nessa perspectiva, o interesse clínico desloca-se do produto final para o processo pelo qual a produção acontece. Importa aquilo que a pessoa produz, mas importa igualmente como começa, onde hesita, o que apaga, o que preserva, que relação estabelece com o material, como seu corpo se modifica durante o trabalho e o que acontece quando finalmente observa aquilo que criou.


Essa mudança impede que a Arteterapia seja reduzida a uma coleção de técnicas ou atividades e permite compreendê-la como um campo no qual expressão, relação e simbolização podem se articular. A produção não constitui uma ruptura com a escuta clínica. Ao contrário, pode ampliar aquilo que se torna disponível para ser escutado.



Corpo, expressão e palavra não competem entre si

Reconhecer a anterioridade corporal da experiência não significa estabelecer uma oposição entre corpo e linguagem. A própria palavra é um acontecimento corporal: falamos respirando, modulando a voz, interrompendo frases, acelerando ou diminuindo o ritmo, olhando ou evitando olhar, movimentando-nos e respondendo corporalmente à presença do outro. A linguagem verbal não abandona a corporeidade; constitui uma de suas possibilidades mais complexas de articulação.


Da mesma maneira, uma imagem pode produzir palavras que anteriormente não existiam, um movimento pode favorecer o reconhecimento de uma emoção e uma forma material pode desencadear uma narrativa. O percurso clínico não possui uma direção única. Pode partir da palavra e chegar à percepção corporal, deslocar-se dessa percepção para uma imagem, encontrar nessa imagem uma emoção ou lembrança e retornar à linguagem verbal de maneira inteiramente diferente. Em outro momento, poderá começar por uma sensação vaga e terminar simplesmente numa capacidade maior de permanecer com aquilo que ainda não pode ser nomeado.


O importante, portanto, não é determinar antecipadamente qual linguagem deverá prevalecer, mas acompanhar o modo como a experiência procura adquirir forma. Corpo, imagem, gesto e palavra não são concorrentes na psicoterapia. São diferentes possibilidades de organização, expressão e elaboração do vivido.



Ampliar a escuta é ampliar as possibilidades de experiência

A relevância dos recursos expressivos na psicoterapia não decorre de uma suposta insuficiência geral da linguagem verbal. A palavra permanece uma dimensão fundamental do encontro terapêutico e uma das mais poderosas possibilidades humanas de elaboração. O que a ampliação da escuta clínica exige é o reconhecimento de algo anterior: a existência humana não começa na palavra. Somos seres corporais, situados e relacionais antes mesmo de conseguirmos explicar o que nos acontece.


Algumas experiências tornam-se palavras rapidamente. Outras permanecem durante anos organizadas como tensões, gestos interrompidos, imagens, sensações, repetições ou modos de estabelecer relações. A psicoterapia pode oferecer um espaço no qual essas experiências encontrem condições para se diferenciar e adquirir formas que permitam maior reconhecimento e apropriação. Isso pode acontecer por meio da conversa, do silêncio, do movimento, do desenho, da modelagem, da escrita ou de inúmeras outras possibilidades, desde que aquilo que orienta o trabalho permaneça sendo a experiência da pessoa e não a aplicação de uma técnica.


Talvez uma das tarefas mais delicadas da clínica seja justamente acompanhar esse momento de passagem em que algo que até então era apenas vivido começa a tornar-se perceptível. A experiência adquire contornos, pode ser reconhecida como própria e passa a participar de uma relação na qual novas possibilidades se tornam imagináveis. Quando isso acontece, expressão e simbolização deixam de ser conceitos abstratos: tornam-se movimentos concretos pelos quais uma pessoa começa a estabelecer uma relação diferente com aquilo que vive.


Para continuar esta reflexão

Este artigo aprofunda uma questão apresentada anteriormente no Blog do Instituto Gestalt do Ceará.



No primeiro artigo, discutimos os limites de uma clínica exclusivamente centrada na narrativa verbal e algumas transformações do sofrimento contemporâneo. Aqui avançamos para uma questão mais específica: a maneira como a experiência corporal pode adquirir forma e tornar-se disponível à simbolização.



Evento — Arteterapia e clínica contemporânea

Essas questões estarão no centro do encontro promovido pelo Instituto Gestalt do Ceará:



O encontro discutirá as possibilidades clínicas abertas pela Arteterapia e pelos recursos expressivos diante de experiências que nem sempre encontram inicialmente uma forma verbal.


26 de agosto de 2026 | 19h às 22h | On-line






Perguntas frequentes

O que são recursos expressivos na psicoterapia?

Recursos expressivos são meios como desenho, pintura, modelagem, movimento, escrita, imagens, dramatização e organização de objetos que podem ser incorporados ao processo terapêutico para ampliar as possibilidades de percepção, expressão e elaboração da experiência. Seu valor não reside simplesmente no material utilizado, mas na maneira como ele participa do processo clínico e da relação terapêutica.


Por que o corpo é importante na psicoterapia?

Porque a experiência humana é corporalmente constituída. Alterações na respiração, postura, movimento, tensão, ritmo e orientação espacial não devem ser compreendidas apenas como sinais externos de processos mentais previamente formados. Elas participam do próprio modo como uma situação é percebida e vivida.


O que significa simbolização na psicoterapia?

Simbolização pode ser compreendida como o processo pelo qual uma experiência adquire uma forma que permite reconhecê-la, diferenciá-la e estabelecer relação com ela. Essa forma pode ser verbal, imagética, corporal, dramática ou produzida por outros meios expressivos. O aspecto fundamental é que algo anteriormente difuso ou indiferenciado se torne mais disponível à experiência e à elaboração.


Recursos expressivos servem apenas para pacientes com dificuldade de falar?

Não. Eles podem ser úteis também quando a pessoa possui boa capacidade verbal, pois permitem explorar dimensões da experiência que uma narrativa já conhecida não torna necessariamente acessíveis. Uma situação compreendida intelectualmente pode adquirir outra qualidade quando é corporalmente experimentada, visualmente organizada ou materialmente representada.


O terapeuta deve interpretar desenhos e outras produções?

Produções expressivas não devem ser tratadas como códigos universais cujo significado possa ser determinado independentemente da pessoa que as produziu. O sentido precisa ser investigado no contexto da experiência, considerando a história da pessoa, a situação presente, a relação terapêutica e aquilo que acontece quando ela entra em contato com sua própria produção.


Recursos expressivos são Arteterapia?

Nem todo uso de recurso expressivo caracteriza Arteterapia. A Arteterapia constitui um campo específico de atuação, com fundamentação, métodos e formação próprios. Recursos expressivos também podem integrar práticas de profissionais de diferentes abordagens quando utilizados de maneira coerente com sua formação, competência e enquadre profissional.


Qual é a relação entre Gestalt-terapia e recursos expressivos?

A Gestalt-terapia possui uma tradição de utilização de experimentos destinados a ampliar awareness e contato com a experiência presente. Recursos corporais, imagéticos, dramáticos e artísticos podem integrar esses experimentos quando emergem de maneira coerente com o processo terapêutico e permanecem subordinados à relação e à investigação da experiência.



Referências

KRAMER, Edith. Art as therapy with children. New York: Schocken Books, 1971.


McNIFF, Shaun. Art as medicine: creating a therapy of the imagination. Boston: Shambhala, 1992.


MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 5. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2018. Obra original publicada em 1945.


OAKLANDER, Violet. Descobrindo crianças: a abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. São Paulo: Summus, 1980.


PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt therapy: excitement and growth in the human personality. New York: Julian Press, 1951.


WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. Obra original publicada em 1971.


YONTEF, Gary M.; JACOBS, Lynne. Gestalt therapy. In: CORSINI, Raymond J.; WEDDING, Danny (org.). Current psychotherapies. 10. ed. Belmont: Cengage Learning, 2013.

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
  • Google+ - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Black Facebook Icon
bottom of page