• Rafael Cidrão Campos

A Gestalt-terapia, a meditação e a ansiedade

A meditação é indicada por seus muitos benefícios. Hoje buscaremos compreender de que maneira a meditação pode contribuir para a eficácia da psicoterapia, particularmente a psicoterapia de orientação gestáltica. Para isso, precisaremos lembrar dos conceitos de contato, assim como resgatar alguns aspectos das intervenções gestálticas atuais que já estavam presentes na terapia da concentração proposta por Perls e na noção de experimento proposta pelos autores do livro Gestalt-terapia (1951/1997).


A meditação se configura como um experimento e como uma prática para a terapia da concentração.

Contato e Terapia da Concentração

Em primeiro lugar, entendemos aqui que contato é o processo de retomada e recriação do nosso passado no processo de nos tornarmos um futuro que ainda não somos (Muller-Granzotto e Muller-Granzotto, 2007). Esta noção já está presente na obra de fundação da Gestalt-terapia, em que Perls, Hefferline e Goodman (1951/1997) afirmam que contato é achar e fazer a solução vindoura (p.48) e que “o presente é uma passagem do passado em direção ao futuro” (180).


A psicoterapia de abordagem gestáltica busca promover o contato, entendido aqui não como uma percepção dos próprios sentimentos, mas como esse ato de recriação. O contato, ou a recriação, é muitas vezes cronicamente interrompido por hábitos inibitórios dos quais o cliente não se dá conta, uma situação que caracteriza o ajustamento criativo neurótico.


A psicoterapia de abordagem gestáltica busca promover o contato, entendido aqui não como uma percepção dos próprios sentimentos, mas como esse ato de recriação

A forma neurótica de interromper o contato é a inibição o excitamento, entendido aqui como a energia que mobiliza o processo de contato. Esta inibição se dá de forma muscular, como já nos mostra Perls (1942/2002) em sua obra Ego, Fome e Agressão. Nesta referida obra, Perls traz uma compreensão clara de que a ansiedade é expressão de uma contenção muscular do excitamento, o que traz um conflito entre a necessidade de respirar para dar vazão ao excitamento e a contração de músculos que impedem a respiração fluida.


A meditar é se concentrar na própria respiração

Perls traz, já em sua obra seminal, um estilo de intervenções conhecido como terapia da concentração, que tem como característica principal a proposta de facilitar que o paciente consiga se concentrar na experiência presente, inclusive na forma como se inibe. A expectativa é de que uma vez que o paciente consiga se dar conta da forma como se inibe, expressão do ajustamento neurótico, poderá relaxar esta inibição e deixar fluir o processo de contato.


Meditação como Experimento

Recordemos novamente que a principal característica do ajustamento neurótico é o hábito de se inibir sem se dar conta. Como podemos ajudar um cliente nestas condições? Por meio do experimento.


Toda intervenção de um Gestalt-terapeuta, mesmo aquelas estritamente verbais, se configuram como experimento. O experimento, tal como apresentado pelos fundadores da Gestalt-terapia, é uma experiência que o clínico convida o paciente a fazer, que tem um aspecto relativamente controlado e incontrolado. Precisa ser relativamente controlado, para que o paciente se permita fazer, mas relativamente incontrolado, para que algo novo seja capaz de surgir, ou seja, restabelecer a capacidade de recriação do contato.


...a meditação se configura como um experimento e como uma prática interessante para a terapia da concentração.

A meditação, entendida aqui como a prática de se concentrar na própria respiração, passando pelos pensamentos que podem surgir durante a atividade, se apresenta, portanto, como uma forma de exercício para que os clientes possam se tornar mais capazes de se perceberam e se darem conta de seus sentimentos e pensamentos, assim como das formas como se inibe. Sendo assim a meditação se configura como um experimento e como uma prática interessante para a terapia da concentração.


Importante destacar a riqueza da prática de meditação durante a sessão clínica, ainda que por poucos minutos. Como vimos, a inibição do excitamento, marca registrada do ajustamento neurótico, se expressa no organismo como ansiedade, e o hábito de se inibir se forma em um campo em que é arriscado o escoamento do excitamento (Perls, 1942/2007; Perls, Hefferline e Goodman, 1951/1997; Muller-Granzotto e Muller-Granzotto, 2007).


Desta forma, quando o cliente medita sozinho e se concentra na própria respiração, pode vivenciar uma ansiedade que dificulta a integração do hábito inibitório e a percepção de sentimentos e pensamentos. Por outro lado, se o cliente medita na presença do terapeuta, alguém em quem confia e com quem se sente à vontade, pode se sentir mais seguro para relaxar a inibição, liberando a respiração e facilitando o contato.


Meditar para aliviar a ansiedade

Nas sessões de psicoterapia, há clientes que se sentem mais relaxados após meditar, sentindo um alívio da ansiedade, o que permite que outras questões se tornem figura no processo terapêutico, que assim pode dar passos mais significativos na caminhada de facilitação do crescimento do cliente. Já outros clientes, por perceberem em si mesmos os benefícios que a meditação pode lhes conferir, adotam-na como prática rotineira de autocuidado a ser vivida mesmo fora da sessão de psicoterapia.


...cabe ao psicoterapeuta convidar o cliente a se dar conta do que está fazendo e o convidar a olhar para o coração e para o corpo, que de tanto não serem visitados, se tornaram estranhos para a própria pessoa.

Olhar para o corpo, dar-se conta de si.

Muitos clientes têm dificuldade de se recriarem e repetem hábitos de inibirem seu próprio crescimento sem se darem conta. Durante as sessões, passam um tempo discursando e apresentando complicados entendimentos de por que suas vidas estão do jeito que estão, sem conseguir adentrar mais profundamente nos sentimentos e atitudes corporais que têm paralisado seu desabrochar. Em casos assim cabe ao psicoterapeuta convidar o cliente a se dar conta do que está fazendo e o convidar a olhar para o coração e para o corpo, que de tanto não serem visitados, se tornaram estranhos para a própria pessoa. O que ocorre é que, infelizmente, alguns clientes estão tão habituados a evitarem seus sentimentos que este convite verbal do terapeuta não é o suficiente para os auxiliar nessa tentativa.


Quando convido os clientes a meditarem e eles se percebem sentindo e se abstendo de pensar por uns instantes, eles vão como que tateando os próprios sentimentos e sensações e assim permitindo que algo novo apareça na sessão. Surge então o inusitado, que os provoca a acompanharem este sentimento novo no seu desabrochar ou o inibir novamente. Quando é possível para o cliente desobstruir o caminho e fluir com seus sentimentos ele vive experiências novas, bem diferentes dos repetitivos hábitos inibitórios e se tornam grávidos de mudanças.


Referências

Müller-Granzotto, M. J., & Müller-Granzotto, R. L. (2007). Fenomenologia e Gestalt-Terapia. Summus Editorial.

Perls, F. S. (1942/2002). Ego, Fome E Agressão: Uma Revisão Da Teoria E Do Método de Freud. São Paulo: Summus Editorial.

Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P. (1951/1997). Gestalt-terapia. São Paulo: Summus.


 

Rafael Cidrão Campos - CRP 11/08944 - Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR (Tema: Experiência vivida de ansiedade em adolescentes em processo seletivo para ingresso no ensino superior), com Formação em Gestalt-terapia pelo Instituto Gestalt do Ceará - IGC e Graduação em Psicologia pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR, tendo como foco de estudos a área de ansiedade, depressão e insegurança. Atualmente coordena um grupo de estudos com o tema "Segurança e risco" no IGC - Instituto Gestalt do Ceará.

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