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Escuta clínica de adolescentes em crise: contribuições da Gestalt-terapia

  • Foto do escritor: IGC - Instituto Gestalt
    IGC - Instituto Gestalt
  • há 21 horas
  • 5 min de leitura

A clínica contemporânea tem encontrado um número crescente de adolescentes cuja experiência de sofrimento não se apresenta prioritariamente sob a forma de conflitos claramente formulados ou de demandas psicologicamente elaboradas. Em muitos casos, aquilo que comparece ao consultório é uma experiência marcada por retraimento, empobrecimento afetivo, dificuldades de pertencimento, sensação de vazio, perda de interesse pela vida cotidiana e uma crescente incapacidade de transformar a experiência vivida em narrativa compartilhável.


Não se trata apenas de adolescentes que sofrem. Trata-se, frequentemente, de adolescentes que já não conseguem reconhecer claramente aquilo que sofrem.

Esse fenômeno tem profundas implicações clínicas. A escuta psicológica tradicionalmente foi concebida como um espaço no qual o sujeito poderia falar de seus conflitos. Entretanto, o sofrimento juvenil contemporâneo frequentemente chega à clínica antes da palavra. Ele aparece no corpo, na evasão escolar, nas crises de ansiedade, nos episódios de automutilação, no isolamento social, na hiperconectividade compulsiva ou em formas silenciosas de dessensibilização afetiva.


Nesse contexto, escutar torna-se algo muito mais complexo do que ouvir relatos. Escutar significa aproximar-se de uma experiência que muitas vezes ainda não encontrou linguagem suficiente para ser comunicada.




ambiente escolar representando ausência juvenil e abandono


O sofrimento juvenil e a crise da experiência

Uma das características mais marcantes da clínica contemporânea é o deslocamento progressivo do sofrimento da esfera do conflito para a esfera da experiência. Se grande parte da psicopatologia clássica estava organizada em torno de conflitos simbolicamente elaborados, muitos dos sofrimentos atuais parecem estar associados ao empobrecimento da própria capacidade de experimentar, sentir e atribuir significado ao vivido.


Autores contemporâneos como Byung-Chul Han têm chamado atenção para o modo como a hiperestimulação contínua, a aceleração do cotidiano e a lógica permanente do desempenho produzem sujeitos progressivamente exaustos, fragmentados e incapazes de sustentar experiências profundas. O excesso de estímulos não produz necessariamente maior riqueza experiencial; frequentemente produz justamente o contrário: superficialidade, dispersão e dessensibilização.


Quando observamos muitos adolescentes hoje, encontramos precisamente esse cenário. Jovens permanentemente conectados, mas frequentemente incapazes de experimentar pertencimento. Cercados por imagens, mas empobrecidos em sua experiência de presença. Expostos a uma multiplicidade de contatos, mas atravessados por sentimentos persistentes de solidão.


É nesse horizonte que a escuta clínica se torna uma tarefa de reconstrução da experiência.



A contribuição fenomenológica: compreender antes de interpretar

A tradição fenomenológica oferece uma contribuição decisiva para a clínica da adolescência porque desloca o foco da explicação para a compreensão. Antes de perguntar qual diagnóstico melhor descreve determinado comportamento, a fenomenologia pergunta como aquele sujeito está vivendo sua experiência.

Essa mudança parece simples, mas possui consequências profundas.


Quando um adolescente apresenta agressividade, retraimento, automutilação ou desesperança, a tendência contemporânea frequentemente consiste em buscar rapidamente uma classificação diagnóstica capaz de organizar o fenômeno observado. A fenomenologia propõe outro caminho: compreender o significado existencial daquilo que está acontecendo.


Como afirma Karl Jaspers, compreender significa acompanhar internamente o sentido vivido da experiência. A tarefa clínica consiste então em aproximar-se do modo como o mundo está sendo experimentado por aquele sujeito.


A pergunta deixa de ser:

"O que esse adolescente tem?"

e passa a ser:

"Como esse adolescente está vivendo sua existência?"

Essa mudança inaugura um espaço clínico radicalmente diferente.


Psicoterapeuta escutando adolescente em sessão clínica baseada na Gestalt-terapia


A Gestalt-terapia e a clínica da presença

A Gestalt-terapia parte da compreensão de que a transformação psicológica não acontece primariamente através da explicação intelectual dos problemas, mas através da ampliação da consciência da experiência presente. Por essa razão, a escuta clínica não é concebida como uma técnica de coleta de informações, mas como uma forma de presença.


Quando o adolescente encontra um espaço onde sua experiência pode ser reconhecida sem julgamento, interpretação precipitada ou exigência imediata de mudança, torna-se possível reconstruir gradualmente sua relação consigo mesmo.


Essa postura clínica adquire relevância ainda maior diante dos sofrimentos contemporâneos. Muitos adolescentes não carecem apenas de orientação ou aconselhamento. Carecem de experiências de reconhecimento. Necessitam encontrar alguém capaz de sustentar a complexidade de sua experiência sem reduzi-la imediatamente a sintomas ou categorias diagnósticas.


Nesse sentido, a presença do terapeuta torna-se parte constitutiva do processo clínico. A relação terapêutica não funciona apenas como contexto da intervenção. Ela é, em si mesma, intervenção.


Como afirma Yontef (1998), o encontro genuíno constitui uma das dimensões centrais da prática gestáltica.



Quando o sintoma se torna linguagem

Uma das contribuições mais importantes da Gestalt-terapia para a clínica da adolescência consiste em compreender que muitos comportamentos considerados problemáticos podem funcionar como tentativas precárias de comunicação.


A agressividade, a automutilação, os comportamentos de risco, o isolamento extremo ou mesmo determinadas manifestações de violência escolar frequentemente aparecem como formas através das quais a experiência busca tornar-se visível.


Isso não significa romantizar o sofrimento nem minimizar seus riscos. Significa reconhecer que o sintoma possui uma função na organização da experiência.


Frequentemente, aquilo que o adolescente não consegue dizer aparece sob a forma de comportamento.


A clínica gestáltica procura justamente criar condições para que aquilo que emerge como sintoma possa gradualmente transformar-se em experiência reconhecida, nomeada e elaborada.



mochila abandonada retrata o isolamento do adolescente que não consegue conversar


Escutar adolescentes em crise é restaurar possibilidades de existência

Talvez a contribuição mais profunda da Gestalt-terapia para a clínica da adolescência não esteja em técnicas específicas, mas em sua compreensão da experiência humana como processo de contato.


Quando a experiência se empobrece, o sofrimento se intensifica. Quando o contato consigo mesmo, com os outros e com o mundo se torna restrito, a existência perde vitalidade. A tarefa clínica passa então a consistir na restauração gradual dessas possibilidades de contato.


Escutar adolescentes em crise significa ajudá-los a reencontrar a capacidade de sentir, reconhecer, significar e habitar a própria experiência.


Mais do que eliminar sintomas, trata-se de ampliar possibilidades de existência.

E talvez essa seja uma das tarefas mais urgentes da clínica contemporânea.



O IGC e a discussão sobre sofrimento juvenil contemporâneo

O evento do IGC:

foi concebido justamente para aprofundar essas questões.


A proposta é discutir como a Gestalt-terapia, a fenomenologia e a clínica contemporânea podem contribuir para compreender e intervir diante dos sofrimentos juvenis que se manifestam na escola, nas relações e na experiência subjetiva dos adolescentes.



FAQ

O que caracteriza uma crise na adolescência?

Nem toda crise adolescente é patológica. Entretanto, quando surgem sofrimento persistente, retraimento intenso, automutilação, desesperança, isolamento ou prejuízos importantes na vida cotidiana, torna-se necessário acompanhamento especializado.


Como a Gestalt-terapia trabalha com adolescentes?

A Gestalt-terapia busca compreender a experiência vivida pelo adolescente, favorecendo contato, reconhecimento, expressão emocional e reconstrução de significados. O foco não está apenas no sintoma, mas na forma como o jovem se relaciona consigo mesmo, com os outros e com o mundo.


A escuta clínica é diferente da orientação ou do aconselhamento?

Sim. A escuta clínica não consiste em oferecer respostas prontas ou conselhos. Ela busca compreender a experiência do sujeito e criar condições para que novos sentidos possam emergir.


A Gestalt-terapia é eficaz para adolescentes?

Diversos estudos e relatos clínicos apontam que abordagens baseadas na relação terapêutica, na presença e na compreensão da experiência podem favorecer significativamente o desenvolvimento emocional e relacional de adolescentes em sofrimento.


Qual a relação entre violência escolar e sofrimento juvenil?

A violência escolar frequentemente se articula a experiências de exclusão, invisibilidade, vergonha, dificuldades de pertencimento e sofrimento psíquico. Compreender essa relação é fundamental para intervenções mais efetivas.


Referências

BINSWANGER, Ludwig. Introdução à análise existencial. Belo Horizonte: Artesã, 2019.


HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura. Aparecida: Ideias & Letras, 2006.


JASPERS, Karl. Psicopatologia geral. São Paulo: Atheneu, 2003.


KARWOWSKI, Silverio Lucio. Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 21, n. 1, p. 62-73, 2015.


MINKOWSKI, Eugène. O tempo vivido. São Paulo: Martins Fontes, 2000.


PERLS, Fritz; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.


YONTEF, Gary. Processo, diálogo e awareness. São Paulo: Summus, 1998.

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