Algumas consideraçÔes sobre workshop terapĂȘutico residencial
- IGC - Instituto Gestalt
- 24 de jan. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de jan. de 2019
por NatĂĄlia Rocha de Lima*

As amarras das instituiçÔes, o aprisionamento aos conceitos, o compromisso com um determinado modo de pensar. De tudo isto clamo por me libertar. Falta-me ainda coragem de ousar. A angĂșstia, no entanto, inquieta-me, para que eu possa pelo menos tentar (Ana Maria Lopes Calvo de Feijoo)
O que Ă© um workshop terapĂȘutico
Workshop Ă© um termo de origem inglesa que significa oficina e remete, portanto, a um grupo de pessoas com interesse em um mesmo assunto. HĂĄ inĂșmeros formas e tipos de workshop, como por exemplo, acadĂȘmicos, empresariais, musicais, terapĂȘuticos, dentre outros. Distinguem-se entre si, principalmente, em relação a sua proposta de trabalho e seu pĂșblico alvo. O objetivo deste texto Ă© fazer algumas consideraçÔes acerca do workshop do tipo terapĂȘutico residencial.
Como o prĂłprio nome sugere, workshop terapĂȘutico residencial Ă© um encontro vivencial e residencial com fins terapĂȘuticos. Dentro dessa modalidade hĂĄ diferentes focos, propostas e temas de trabalho. Ressaltam-se as diversas abordagens presentes na psicologia: a PsicanĂĄlise, a Comportamental e a Gestalt-terapia, entre outras, implicando cada uma delas em diferentes formas de condução e foco de atuação. AlĂ©m disso, o pĂșblico alvo pode ser famĂlia, casais, estudantes, jovens, adolescentes, comunidade de forma geral, profissionais em formação/especialização, e muitos outros.
O Worskshop GestĂĄltico
Em Gestalt-terapia, que tem como primazia a existĂȘncia, pode-se dizer que um dos seus principais objetivos terapĂȘuticos Ă© a ampliação da awareness de si mesmo, dos sentimentos, dos pensamentos, do corpo, inclusive do prĂłprio ambiente. Considera-se que o workshop terapĂȘutico residencial Ă© essencial na formação clĂnica do Gestalt-terapeuta, pois vai alĂ©m de uma formação teĂłrica e prĂĄtica, envolvendo um trabalho mais pessoal.
Ou seja, propicia uma saga exploratória de si mesmo que implica em um caminho que se entrelaça com o desenvolvimento pessoal e a formação profissional.
O workshop didĂĄtico
No Curso de Especialização ClĂnica em Gestalt-terapia do IGC â Instituto Gestalt do CearĂĄ, o workshop residencial acontece em trĂȘs momentos: apĂłs o inĂcio do curso, no terceiro ou quarto encontro do grupo; no meio do curso e no final do curso. Entendendo que o gestalterapeuta deverĂĄ se preparar nĂŁo apenas teoricamente, torna-se um elemento obrigatĂłrio de sua formação e de sua preparação como clĂnico.
Diante disso, como se preparar para participar de uma experiĂȘncia tĂŁo Ămpar como um workshop terapĂȘutico? Os gestalterapeutas adotam a premissa de que as pessoas estĂŁo sempre em construção e nĂŁo prontas. Desta forma, pode-se pensar em preparação no sentido de disposição diante do desconhecido. Algumas atitudes pessoais podem possibilitar um encontro mais mobilizador, dentre elas: suspender os prĂ©-conceitos (para emergir fenĂŽmenos do aqui e agora); estar aberto para trocas, estar sensĂvel a escuta; ter interesse e respeito pelas pessoas, por suas histĂłrias, por seus dilemas, acolher suas angĂșstias; ter vontade de conhecer as pessoas; deixar-se afetar pela fala do outro e ter vontade de partilhar sentimentos, histĂłrias; envolver-se, permitir-se estar em contato, perceber e ser percebido pelas pessoas; estar disponĂvel e, por Ășltimo, ter consciĂȘncia da seriedade do encontro.
Tendo consciĂȘncia dessas atitudes, entende-se que um dos propĂłsitos do workshop terapĂȘutico Ă© tornar as pessoas mais sensĂveis diante da pluralidade da vida. Por meio da partilha de experiĂȘncias, sentimentos, medos, ansiedades e frustraçÔes, aperfeiçoa-se a lida com o humano e com o que Ă© prĂłprio do humano.
As etapas do workshop terapĂȘutico residencial, na formação do gestalterapeuta, variam bastante de acordo com o propĂłsito do trabalho, com as caracterĂsticas/formação do facilitador e com a disposição do grupo. PorĂ©m, destacam-se algumas peculiaridades: o mĂ©todo de trabalho Ă© experiencial, o foco Ă© na vivĂȘncia; o facilitador, assim como o grupo, acolhe as inquietaçÔes que emergem, conduzindo as pessoas a se questionarem, refletirem sobre o dito e o nĂŁo dito, ampliando, desta forma, as sensaçÔes e sentimentos que, na maioria das vezes, nĂŁo estĂŁo claros. SĂŁo inĂșmeras as formas de intervenção que vĂŁo se constituindo a partir da entrega e disposição do grupo.
Diferença entre workshop e psicoterapia de grupo
Isto posto, ressalta-se que hĂĄ uma diferença entre trabalhos de psicoterapia de grupos tradicionais e os trabalhos em workshop terapĂȘutico residencial. Neste Ășltimo, o grupo se relaciona mais intensamente, ou seja, durante alguns dias, semanas ou atĂ© meses, o grupo convive diretamente, dormindo na mesma casa e desenvolvendo atividades para alĂ©m das horas de trabalho terapĂȘutico. Logo, alguns temas intrĂnsecos Ă s relaçÔes humanas emergem de forma mais intensa, como os conflitos, a cooperatividade, o individualismo, as preferĂȘncias, os anseios, as manias, as diferenças de opiniĂ”es e gostos pessoais, entre outros. Nos workshops residenciais do Curso do IGC os encontros duram trĂȘs dias: sexta noite, sĂĄbado manhĂŁ, tarde e noite, e domingo pela manhĂŁ. Esse tempo Ă© suficiente para que essas questĂ”es citadas tambĂ©m apareçam e o grupo possa decidir como e se vai aborda-las.
BenefĂcios para o aluno

SĂŁo inĂșmeros os efeitos que o workshop terapĂȘutico residencial pode trazer para a formação de um psicoterapeuta, pois o desenvolvimento pessoal Ă© fundamental na formação de um clĂnico gestĂĄltico. A fala, a escuta, o silĂȘncio, o acolhimento, a empatia, o respeito, o interesse, sĂŁo habilidades tĂŁo importantes na prĂĄtica clĂnica que podem ser aperfeiçoadas ao se permitir vivenciar experiĂȘncias do tipo daquelas evocadas pelo workshop. Ser tocado pelas histĂłrias e lutas das pessoas nos torna mais humanos. Apesar de todas as pessoas terem suas prĂłprias histĂłrias e singularidades que as fazem Ășnicas, em algum ponto hĂĄ o encontro das vivĂȘncias, hĂĄ o encontro de vidas. Esse encontro traz o entendimento de que nĂŁo estamos sĂłs, que os caminhos percorridos individualmente se cruzam com os caminhos de outras pessoas. Desse modo, hĂĄ um processo individual e um processo grupal.
Enfim, por meio do compartilhamento das experiĂȘncias o grupo vai participando do processo terapĂȘutico de cada uma das pessoas, percebendo, assim, que o contato com a dor, com a angĂșstia e com as inquietaçÔes faz parte do processo de crescimento e que evitar essas emoçÔes nĂŁo ajuda muito. Um misto de sensaçÔes, emoçÔes e sentimentos podem ser vivenciados em um espaço curto de tempo, mas para isso Ă© necessĂĄrio permitir-se. O simples ato de abertura e disponibilidade pode ser o elemento disparador de um processo de crescimento e mudança que poderĂĄ perdurar por dias, talvez meses, quem sabe anos.
*NatĂĄlia Rocha de Lima Ă© PsicĂłloga, psicoterapeuta do PAS â Programa de Atendimento Social do IGC e aluna da Turma III do Curso de Especialização ClĂnica em Gestalt-terapia do IGC - Instituto Gestalt do CearĂĄ
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