• Rafael Cidrão Campos

A facilitação de grupos de estudo na formação de Gestalt-terapeutas

Entendo que a formação do Gestalt-terapeuta se dá de maneira complexa e que sua prática clínica é nutrida por vários mananciais, dos quais quero destacar três: a própria terapia do terapeuta, a supervisão com outro profissional e a formação teórica. No meu caso específico, tenho percebido que a cada vez que leio livros de Gestalt-terapia eu me torno um terapeuta mais sensível e capaz de perceber novas nuances nas experiências dos meus clientes.



A formação do Gestalt-terapeuta e os grupos de estudos

A fim de contribuir para a reflexão sobre essa formação, gostaria de, neste texto apresentar minhas vivências e reflexões sobre a experiência de participar e facilitar grupos de estudo, destacando a importância destes grupos para a especificidade da formação e prática clínica do Gestalt-terapeuta, pois percebo que uma forma rica de viver uma formação continuada é a participação em grupos de estudo. Para tanto, olharemos para o grupo de estudo como um contexto propício ao surgimento de uma relação dialógica entre facilitador e os membros do grupo, possibilitando uma aprendizagem mútua e contando com uma ênfase vivencial com ganhos terapêuticos.


No caso do grupo de estudo que facilitei no ano de 2020 sobre Segurança e Risco em Gestalt-terapia acordamos que mais importante do que cumprir um cronograma seria nos permitirmos discutir os textos o quanto quisermos, enquanto o tema fosse ainda interessante. Nisto pudemos perceber a vivência da agressão, apresentada por Perls (1942) como uma energia de aproximação de um objeto no ambiente, uma energia em que um objeto é destruído (desestruturado) para melhor assimilação pelo organismo. Assim, no grupo de estudo nos damos o direito de expressar nossas opiniões e sentimentos em relação ao que lemos, tornando possível uma melhor assimilação dos conceitos discutidos.

De acordo com Andrade (2014), o desenvolvimento do autossuporte pode derivar da confiança no suporte ambiental fornecido pelo terapeuta. Como facilitador de grupo de estudo, busco propiciar um clima de acolhimento com os participantes para que, fornecendo um tipo de suporte ambiental, eles possam desenvolver um autossuporte para expressarem suas dúvidas quanto ao que estamos lendo, ousando mesmo diante de possíveis sentimentos de vergonha e medo de errar. Portanto, ainda que a bagagem teórica do facilitador tenha servido para esclarecer algumas dúvidas, seu saber não é absoluto e se enriquece com as divergências e convergências dos membros do grupo.


Uma relação dialógica por meio da palavra princípio “Eu-Tu”, no grupo de estudo, significa acolher e vivenciar a relação por meio de um acolhimento da alteridade, e não por meio de uma objetificação, algo mais característico da relação “Eu Isso”.

Uma vez que as opiniões e divergências dos membros do grupo de estudo são assim valorizadas, é muito importante que o facilitador se abra a uma relação dialógica com os membros de estudo. Uma relação dialógica por meio da palavra princípio “Eu-Tu”, no grupo de estudo, significa acolher e vivenciar a relação por meio de um acolhimento da alteridade, e não por meio de uma objetificação, algo mais característico da relação “Eu Isso”. Importante salientar aqui, que uma relação “Eu-Tu” acontece por meio da graça, ainda que procurada, e que todo Tu se tornará um Isso, como podemos ver em Buber (1923/2012). O diferencial em um grupo de estudo que acolhe os sentimentos e opiniões dos membros é a abertura a este tipo de relação, ainda que posteriormente o conhecimento do facilitador sirva de orientação para a construção comum do saber.


A valorização da dúvida e dos sentimentos dos membros sugere também uma metodologia pouco ortodoxa. De maneira geral, ao se formar um grupo de estudos, é buscada uma homogeneização ou nivelamento dos membros quanto ao grau de conhecimento do tema. O nivelamento tem como vantagem que o grupo não perderá tempo explicando conceitos básicos que se pressupõe que todos os membros sabem. Além disso, em um grupo nivelado a chance de alguém se sentir “perdido”, ou que não acompanha o ritmo do restante é menor. No caso de termos assumido uma relação dialógica, a metodologia que utilizamos no grupo de estudo esse ano se beneficia justamente pelos diferentes graus de conhecimento do tema, algo evitado em grupos que buscam uma homogeneização. Na medida em que temos pessoas com diferentes níveis de conhecimento no mesmo grupo de estudo, somos levados a esclarecer minuciosamente cada conceito, com diversas nuances. Assim, um conceito complexo é discutido de forma a ficar o mais claro possível e o que observamos é que pessoas que achavam compreender um conceito puderam então enriquecer ou superar sua antiga compreensão diante da discussão do grupo.


A multiplicidade de olhares favorece também o enriquecimento do conhecimento do facilitador. Na facilitação de grupo no ano de 2020 pude perceber que havia formas complementares de se compreender um mesmo trecho de um livro estudado e assim meu conhecimento sobre aquele trecho foi aprofundado, algo pelo que sou grato à diversidade do olhar do grupo.


Tem lugar para a compreensão

No grupo de estudos em questão assumimos como objetivo propiciar mais do que um entendimento: uma compreensão. A diferença entre entendimento e compreensão é apresentada por Perls (1985). De acordo com o cofundador da Gestalt-terapia, o entendimento se circunscreve a uma dimensão racional e cognitiva, ao passo que a compreensão se apresenta como uma forma de assimilação que envolve o sentimento e a sensibilidade.


Um conceito complexo é discutido de forma a ficar o mais claro possível e o que observamos é que pessoas que achavam compreender um conceito puderam então enriquecer ou superar sua antiga compreensão diante da discussão do grupo

Para alcançar este objetivo optamos por sair de uma discussão puramente intelectual sobre os conceitos das obras estudadas e nos perguntar sobre nossos sentimentos e sensações diante do que estávamos estudando. A confiança dos membros em falarem de suas vidas para o grupo foi algo construído com o tempo e também um privilégio oferecido ao grupo. A partilha de sentimentos e vivências dos membros transformou o grupo de estudo em um lugar de intimidade e cuidado, algo que adquiriu grande importância para os membros.

Ainda que não se configure como um grupo de psicoterapia, os encontros do grupo de estudos propiciaram experiências profundamente terapêuticas e de grande aprendizado, tanto por meio das reflexões quanto por meio da ousadia em expressar sentimentos e experiências. Assim, o grupo de estudo assume uma cara de experimento. O experimento é descrito na obra de Perls, Hefferline e Goodman (1951) como uma situação em que uma pessoa se permite, dentro de um contexto relativamente controlado, algo relativamente incontrolado, algo novo. A mesma obra apresenta a compreensão de que o organismo cresce pela assimilação da novidade. Assim, ao se permitir o contato com a novidade estamos nos permitindo experiências mais nutritivas, com mais brilho e graça. No grupo, ao nos permitirmos falar de nossas vivências, sentimentos e necessidades, encontramos apoio, suporte e acolhimento.


Enfim

A facilitação de grupo de estudo em 2020 confirmou a importância do contínuo aprofundamento teórico do Gestalt-terapeuta para a sua prática clínica. Além disso, ao longo dos encontros pude perceber que ocorreu um aprendizado ainda maior sobre o tema que discutimos, e não uma transferência unilateral de saber. O grupo cresceu quanto ao domínio do tema que estudamos e os membros puderam compreender os conceitos que examinamos, além de olhar de outra forma para suas vidas pessoais e profissionais.


Referências

Andrade, C. C. (2014). Autossuporte e heterossuporte. Gestalt-terapia: conceitos fundamentais, 2, 147-162.

Buber, M. (1923/2012). Eu e Tu. São Paulo: Centauro Editora.

Perls, F. S. (1942/ 2002). Ego, fome e agressão - uma revisão da teoria e do método de Freud. Summus Editorial.

Perls, F. S. (1985). A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora.

Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P. (1951/1997). Gestalt-terapia. São Paulo: Summus.


Rafael Cidrão Campos - CRP 11/08944 - Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR (Tema: Experiência vivida de ansiedade em adolescentes em processo seletivo para ingresso no ensino superior), com Formação em Gestalt-terapia pelo Instituto Gestalt do Ceará - IGC e Graduação em Psicologia pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR, tendo como foco de estudos a área de ansiedade, depressão e insegurança.

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