• Álvaro Rebouças Fernandes

Reflexões de um terapeuta de casais e famílias em meio a pandemia de COVID-19

Comecei 2020 acreditando que seria mais um ano de muitas atividades, descobertas, conquistas e superação de dificuldades. E foi isso mesmo! Mas eu não sabia que uma crise sanitária global, uma pandemia, afetaria minha vida e do mundo inteiro de uma forma tão significativa. Pensei, o que será essa doença?



E chega a pandemia

Nossas vidas foram abrupta e inexoravelmente marcadas pela chegada, em janeiro, do anúncio de uma pandemia informada pelas notícias dos portais de internet e telejornais. Elas comunicavam que o novo Corona-vírus ou Sars CoV 2 causava uma síndrome aguda respiratória ou doença chamada de COVID-19. Essa doença estava causando um alerta sanitário em Wuhan na província de Hubei na China por sua rápida transmissão e pelo número de mortes que começava a crescer. A doença descoberta no segundo semestre de 2019 foi anunciada pelo médico chinês Li Wenliang no mês de dezembro. A transmissão ultrapassou as fronteiras da China e se espalhou pelo mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou Estado de Emergência de Saúde Pública de importância Internacional (ESPII) no dia 30 de Janeiro e a pandemia[1] no dia 11 de Março de 2020 (KAMPS e HOFFMANN, 2020; VELAVAN e MEYER, 2020). Indaguei-me, será que essa doença chegará ao Brasil e ao Ceará?


No início de 2020, nos meses de janeiro e fevereiro, atendi presencialmente somente alguns casais com as queixas frequentes: dificuldades de comunicação, mudanças na rotina, ajustes na relação conjugal, infidelidade e reaproximação afetiva. Não estava atendendo nenhuma família nesse período. Em São Paulo, no mês de fevereiro, foi confirmado o primeiro caso no Brasil de infecção pelo novo Corona-vírus. Em março, o governador do Ceará, Camilo Santana, decretou o confinamento da população com intenção de reduzir a taxa de propagação da contaminação de Covid-19 (CEARÁ, 2021). Esse decreto impactou diretamente os atendimentos presenciais, pois todos possibilitavam a rápida propagação do vírus. Os atendimentos psicoterápicos e terapêuticos presenciais foram suspensos, porém, anteriormente, em 2012 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) havia publicado duas resoluções 11/2012 e 11/2018 sobre os atendimentos psicológicos online. Deste modo, a solução para essa situação seria o atendimento psicológico online. Para realizar esse atendimento foi necessário preencher o cadastro E-Psi para oferecer atendimentos online com os clientes que desejassem. Esse cadastro seria posteriormente avaliado pelo Conselho (CFP, 2020; CFP 2018). Realizei o cadastro e fui aprovado meses depois. Interroguei-me, será que os clientes aceitariam essa forma de atendimento?


"A maior parte de meus clientes não aderiu aos atendimentos online com exceção de um casal que foi atendido somente até o início do mês de abril. Fiquei sem atendimentos na clínica particular até o final de junho quando retornei aos atendimentos presenciais."

Chega uma outra forma de atendimento

A maior parte de meus clientes não aderiu aos atendimentos online com exceção de um casal que foi atendido somente até o início do mês de abril. Fiquei sem atendimentos na clínica particular até o final de junho quando retornei aos atendimentos presenciais. Nesse período de abril à junho criei um atendimento de plantão psicológico para casais e famílias online em que realizei com oito psicólogos convidados, o atendimento voluntário desse público. Esse serviço teve como objetivo acolher casais e famílias em situação de crise no confinamento, favorecendo o convívio doméstico, o enfrentamento do conjunto de estressores contextuais, dos processos de luto vividos e a redução de riscos que poderiam surgir. Portanto, é um espaço de fala sobre as questões que os casais e famílias poderiam estar enfrentando (SCHMIDT, SILVA, PIETA e CREPALDI, 2020; SILVA, SCHMIDT, LORDELLO, NOAL, CREPALDI e WAGNER, 2020). Os atendimentos foram realizados por plataformas digitais ou outras tecnologias de informação e comunicação (TICS). Eles poderiam ser realizados por áudio ou videoconferência. Ao todo atendemos dez casais e quatro famílias no período de abril a julho de 2020. Destes eu atendi, nesse formato, um casal e uma família. Todos traziam as queixas decorrentes da influência do contexto de pandemia e do isolamento social (DOS SANTOS e DE FREITAS OLIVEIRA, 2020). Eles relataram: dificuldades de comunicação, crises conjugais, crises de adaptação, crises de ansiedade, ajustes nos relacionamentos, redefinição das rotinas domésticas, estresse e enfrentamento da perda de cônjuges e de membros da família.


O casal F. e B. que solicitou atendimento remoto no período do isolamento social de março a julho serão chamados nesse artigo de casal Alves como sobrenome fictício para manter o sigilo de suas identidades. O marido F. (30) é assistente logístico e B. (30) é professora de Português no ensino fundamental I e II. Na ocasião informaram que estavam casados há dois anos e três meses. A queixa conjunta apresentada foi a infidelidade conjugal de F. que passou por uma crise existencial e a volta da confiança de B. que foi perdida com o evento. Ambos afirmaram estar dispostos a enfrentar as consequências da situação e realizar as mudanças necessárias conjuntamente. Haviam se separado duas vezes por pouco tempo anteriormente, se reconciliado também duas vezes. Todas as quatro sessões foram realizadas remotamente, no sábado pela manhã, no mês de maio de 2020. Nas sessões utilizei intervenções verbais sistêmicas (perguntas lineares, circulares, estratégicas e reflexivas), técnicas de ação psicodramáticas, sociodramáticas e sistêmicas (role playing, inversão de papéis, átomos social, cultural, conjugal e familiar, escultura, etc). Segui os procedimentos estabelecidos pela escola de terapia familiar que sou formado, o sociodrama familiar sistêmico da Maria Rita D´Angelo Seixas (SEIXAS, 1992). O casal Alves morava junto em uma casa em um dos bairros de Fortaleza. Essa condição facilitou muito a realização das intervenções nos atendimentos mediado pela internet. Ao final do processo, na quarta sessão, o casal Alves chegou à conclusão que eram muito complementares e ainda nutriam amor um pelo outro, mas que teriam que tratar das mágoas e ressentimentos para continuar vivendo juntos. Sua comunicação melhorou e eles começaram a realizar muitas atividades juntos em casa, que em parte foi favorecida pelo contexto de confinamento do momento e pela necessidade de cooperação. Perceberam que cuidar da casa, cuidar de si e do outro eram atividades que os ajudariam a buscar reestabelecer a confiança em si e no outro, assim como no compromisso que, conscientemente, ambos estavam refazendo.


Neste período foi muito noticiado um aumento significativo nos casos de violência contra a mulher (TOLEDO, 2020; GOMES, 2020), feminicídios (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2020; INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA) E FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2020), violência familiar (VIEIRA, GARCIA e MACIEL, 2020) e divórcios (CONSELHO NOTORIAL DO BRASIL CONSELHO FEDERAL, 2020). Não recebemos nenhuma dessas graves situações que necessitariam de uma rápida e multiprofissional intervenção jurídica e/ou policial e em saúde mental para as vítimas. Ponderei, como será a volta aos atendimentos presenciais?


A volta dos atendimentos presenciais

Em junho, as clínicas particulares foram autorizadas a retornar as suas atividades presenciais realizando como medidas de prevenção da disseminação do novo Corona-vírus o distanciamento social de pelo menos um metro e meio, a utilização de máscaras, a higienização das mãos e de objetos com álcool. Essas medidas eram realizadas desde o início da pandemia em março, só que ocorriam apenas nos momentos que as pessoas precisavam sair de suas residências para realizar atividades urgentes e necessárias. Agora seria utilizada na retomada das atividades laborais semanais e diárias para os profissionais que não estavam na linha de frente de combate da Covid-19.

"...com o passar do tempo outros acompanhamentos com casais, famílias e individuais foram sendo solicitados em uma procura mais intensa que em outros períodos, creio eu, devido ao confinamento e a pandemia."

Voltei aos atendimentos presenciais no início de junho por solicitação do casal B. e K. que aqui chamarei pelo sobrenome fictício de casal Pereira para manter sigilosa sua identificação. Mas com o passar do tempo outros acompanhamentos com casais, famílias e individuais foram sendo solicitados em uma procura mais intensa que em outros períodos, creio eu, devido ao confinamento e a pandemia. No final do primeiro semestre e no segundo de 2020 realizei acompanhamento terapêuticos a três famílias, nove casais e seis pessoas em psicoterapia individual. Continuei realizando alguns atendimentos online com dois casais e uma pessoa. Alguns desses acompanhamentos foram encerrados pelos clientes e outros se transformaram em atendimentos individuais. Com vários atendimentos ocorrendo ao mesmo tempo pensei, será que conseguirei realizar esses muitos acompanhamentos online e presenciais? Os atendimentos virtuais continuei a realiza-los e havia me adaptado bem as suas exigências, mas havia os atendimentos presenciais, será que conseguiria me readaptar com as novas exigências envolvidas? A resposta veio no primeiro atendimento ao casal Pereira, aquele que me reconduziu ao mundo da terapia presencial, que para mim, somou o desafio de lidar com as questões que eram trazidas por eles em um contexto ansiogênico e amedrontador, devido a possibilidade de contágio pelo Corona-vírus com a satisfação de conduzir um processo presencial novamente.


O casal B. (44) e K. (46) solicitaram atendimento presencial no final de junho de 2020. Ambos profissionais de saúde engajados no combate a Covid-19 que já haviam sido infectados. Estavam casados há 20 anos, tendo dois filhos, moravam em Fortaleza, mas estavam de partida para se estabelecer em outra cidade no interior de outro Estado. A queixa conjunta trazida foi a vivência de uma crise conjugal por ajustamento da distância emocional entre eles que foi agravada por um episódio de traição do marido. Ambos se mostraram dispostos a enfrentar a crise e suas consequências. K. informou que precisava constituir o espaço para sua individualidade para existir para si e para o marido demonstrando que havia anulado sua vontade e desejo para favorecer ao marido que decidia pelos dois. Realizamos algumas intervenções (verbais e técnicas de ação) nas sessões como: o átomo individual e conjugal dos incômodos, a linha do tempo individual e do casamento, esculturas, a projeção de futuro, os diários individuais do cotidiano, o contrato conjugal e a inversão de papéis. Com o passar das sessões eles foram mudando suas percepções sobre si mesmos, sobre o outro e sobre a relação conjugal. Tornou-se perceptível os resultados, mesmo que esse não era nosso objetivo, pois em nosso trabalho conjunto havia a necessidade de mudança do significado atribuído ao problema por cada um e, consequentemente, encontrar uma nova forma de enfrentamento da situação conflitiva. Eles começaram a expressar melhor suas vontades e limites em uma comunicação com uma menor quantidade de ruídos e maior de interpretações corretas. O acompanhamento do casal foi encerrado no mês de julho devido sua mudança para outra cidade onde iriam morar, com a reaproximação emocional dos cônjuges em franco progresso e com as regras negociadas do contrato conjugal estabelecido em um recomeço que foi concretizado por sua mudança de cidade, de contexto e de modo de vida.


"...aprendi a compreender melhor o que é parar e ser parado, ouvir e ser ouvido, ajudar e ser ajudado, entender e ser entendido, cuidar e ser cuidado, a cumprimentar e a dizer adeus."

E nesse processo, o aprendizado

Ao findar esse processo tive a certeza que eu conseguiria, como eles, enfrentar os desafios pessoais e profissionais que estavam surgindo. E mesmo com receio pelas dificuldades que existiam em nosso contexto, percebi que se fortaleceu em mim a esperança de poder contribuir com os processos terapêuticos e psicoterápicos de quem me procurar. Nesse período aprendi a compreender melhor o que é parar e ser parado, ouvir e ser ouvido, ajudar e ser ajudado, entender e ser entendido, cuidar e ser cuidado, a cumprimentar e a dizer adeus. São tempos de reaprendizados sobre a Terra, o humano, a morte e a vida. Quais ensinamentos o futuro nos reserva? Caminhemos então! Solidarizo-me com as famílias das mais de duzentas mil pessoas falecidas no Brasil pela Covid-19.



[1]Pandemia, palavra de origem grega, formada com o prefixo neutro pan e demos, povo, foi pela primeira vez empregada por Platão, em seu livro Das Leis (11). Platão usou-a no sentido genérico, referindo-se a qualquer acontecimento capaz de alcançar toda a população. No mesmo sentido foi também utilizada por Aristóteles (1). Galeno utilizou o adjetivo pandémico em relação a doenças epidêmicas de grande difusão (9). (...) O conceito moderno de pandemia é o de uma epidemia de grandes proporções, que se espalha a vários países e a mais de um continente ...” (DE REZENDE, 1998, p.154).


Referências

CONSELHO NOTORIAL DO BRASIL CONSELHO FEDERAL. Época destaca o aumento de divórcios durante a pandemia. Audiências remotas facilitaram processo. Disponível em: https://www.notariado.org.br/epoca-destaca-aumento-de-divorcios-durante-a-pandemia/Acessado em: 04/01/2020.


CEARÁ. Decreto 33.510, de 16 de março de 2020. Diário Oficial do Estado. Editoração Casa Civil Ceará. Fortaleza, 16 de Março de 2020. Série 3. Ano XII. N0 053. Caderno 1/4. Disponível em: https://www.ceara.gov.br/decretos-do-governo-do-ceara-com-acoes-contra-o-coronavirus/. Acessado em 01/01/2021.


CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Nova resolução do CFP orienta categoria sobre atendimento online durante a pandemia de Covid-19. (CFP n. 04/2020). Disponível em: https://site.cfp.org.br/nova-resolucao-do-cfp-orienta-categoria-sobre-atendimento-on-line-durante-pandemia-da-covid-19/. Acessado em 01/01/2021.


CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Conselho publica nova resolução sobre atendimento psicológico online (CFP n. 11/2018). Disponível em: https://site.cfp.org.br/cfp-publica-nova-resolucao-sobre-atendimento-psicologico-online/. Acessado em 01/01/2021.


DE REZENDE, J. M. Epidemia, endemia, pandemia, epidemiologia. Revista de Patologia Tropical/Journal of Tropical Pathology, v. 27, n. 1, 1998.


DOS SANTOS, M. F. R.; DE FREITAS OLIVEIRA, M. E. Saúde mental em tempos de covid-19: a importância do atendimento psicológico remoto. Revista Transformar, v. 14, n. 2, p. 76-90, 2020.


FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020. São Paulo, 2020.


GOMES, K. S. Violência contra a mulher e Covid-19: dupla pandemia. Revista Espaço Acadêmico, 20 (224), 119-129, 2020. Recuperado de http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/55007.


INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA) E FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Atlas da Violência 2020. Brasília: IPEA, 2020.


SCHMIDT, B. et al. Terapia On-line com Casais e Famílias: Prática e Formação na Pandemia de Covid-19. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 40, 2020.


SEIXAS, M. R. d'A. Sociodrama familiar sistêmico: relações entre a teoria sistêmica/cibernética e o sociodrama familiar. Editora ALEPH, 1992.


SILVA, I. M. da et al. As relações familiares diante da COVID-19: recursos, riscos e implicações para a prática da terapia de casal e família. Pensando famílias, v. 24, n. 1, p. 12-28, 2020.


TOLEDO, E. O aumento da violência contra a mulher na pandemia de Covid-19: um problema histórico. Disponível em: http://coc.fiocruz.br/index.php/pt/todas-as-noticias/1781-o-aumento-da-violencia-contra-a-mulher-na-pandemia-de-covid-19-um-problema-historico.html . Acessado em 04/01/2020.


KAMPS, B. S.; HOFFMANN, C. Referência COVID. Tradução de Joana Catarina Ferreira da Silva e Sara Mateus Mahomed. Alemanha: Steinhäuser Verlag, 2020.


VELAVAN, T. P.; MEYER, C. G. The COVID ‐ 19 epidemic. Medicina tropical e saúde internacional, v. 25, n. 3, pág. 278, 2020.


VIEIRA, P. R.; GARCIA, L. P.; MACIEL, E. L. N. Isolamento social e o aumento da violência doméstica: o que isso nos revela?Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 23, p. e200033, 2020.


Álvaro Rebouças Fernandes é Psicólogo, especialista em psicodrama e terapia familiar sistêmica. Doutorando pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Mestre pela Universidade de Fortaleza. Professor do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza e psicólogo clínico no IGC - Instituto de Gestalt do Ceará.

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