• Silvério Karwowski

Ser um profissional bem-sucedido ou ser uma pessoa bem sucedida?

Por Silverio Karwowski*



Sempre peço, em sala de aula, que os meus alunos citem pessoas bem sucedidas.

Sem nenhum esforço, aparecem os nomes de pessoas de grande fortuna, de referência constante na mídia, ou que estão no exercício de algum tipo de poder. Serão esses os critérios reais para considerarmos uma pessoa bem sucedida? Os princípios de sucesso social são exatamente aqueles que mais fazem as pessoas felizes?


Neste post farei referências ao sucesso pessoal e ao sucesso profissional, tecendo algumas considerações sobre as noções de sucesso em voga e as implicações para o crescimento pessoal e profissional.


O que é mesmo esse tal de sucesso?

A citação de pessoas com as características acima (de grande fortuna, de referência constante na mídia, ou que estão no exercício de algum tipo de poder), de maneira tão imediata como a feita por meus alunos, sem qualquer tipo de reflexão sobre os critérios de sucesso, revela quais são os indicadores considerados como definidores, para que uma pessoa atinja uma posição de sucesso: fama, poder e dinheiro.


Nossa construção social piramidal pressupõe que apenas poucos estejam no ápice, e que a grande maioria esteja na base.

Curiosamente, os próprios alunos não percebem que adotando esses elementos como critérios de sucesso criam, eles mesmos, os caminhos para o insucesso ou fracasso. Nossa construção social piramidal pressupõe que apenas poucos estejam no ápice, e que a grande maioria esteja na base. Consequentemente, ao aliar o conceito de sucesso à realização econômica, restringe-se quantitativamente a possibilidade de serem reconhecidas as pessoas bem sucedidas, pois apenas os mais afortunadas serão consideradas como tendo obtido sucesso.


Não é difícil se chegar a conclusão que pouquíssimos farão fortuna, serão famosos (midiáticos) ou estarão em posição de poder, da forma como as pessoas que foram, por eles mesmos, citadas em sala-de-aula. Logo, quem não atingir essa condição, estaria logicamente fracassada.


Além disso, a confusão estabelecida entre melhoria de qualidade de vida e sucesso profissional, torna esses dois elementos indissociáveis, e contribui também para a crença de que qualidade de vida é necessariamente inerente a grande quantidade de dinheiro. Oculta o fato de que o quantitativo econômico necessário para dignificar as condições de vida (acesso a: moradia, transporte de qualidade, prevenção de doenças e tratamento de saúde, alimentação adequada, opções de lazer e à educação) não se refere à fortuna, mas a condições políticas e econômicas, ao mesmo tempo em que torna qualidade de vida sinônimo de "excesso" e de "ostentação".


Se você é psicólogo ou aluno de psicologia, não quer apenas ter sucesso em sua profissão, mas quer também sentir-se realizado como pessoa. Na maioria das faculdades não é ensinado como e em que se deve investir para aumentar sua competência no exercício profissional. quando é suficientemente ensinado nas faculdades, o aluno está tão envolvido com as obrigações escolares que acaba não dando suficiente importância ao tema. Veja no meu outro post algumas dicas/orientações sobre onde investir para alcançar sua realização como pessoa e como profissional.


Na vida prática

Talvez seja então necessário, pensar de forma distinta as noções de sucesso pessoal e sucesso profissional, por mais que estejam inter-relacionadas. Um acontecimento bem representativo dessa necessidade pode ser percebido na única vez que pude ouvir de um aluno, em sala de aula, resposta diferente à minha pergunta sobre exemplo de pessoas de sucesso.


Nessa feita, enquanto os demais alunos proclamavam entusiasmados os nomes de pessoas ricas, famosas ou poderosas, estufa o peito um deles e responde: “meu pai, professor!", "meu pai é uma pessoa de sucesso!”...


Aquele breve silêncio que se fez na sala após a resposta do aluno prenunciou o deboche que se seguiu depois. Entre gargalhadas e caretas, perguntaram os alunos ao colega: “você é filho de quem, do presidente dos Estados Unidos?”, “do rei tal”, do empresário x, ou do político Y? Notei que o aluno, inicialmente orgulhoso na sua proclamação, passou a silencioso, vermelho e depois, claramente constrangido. Parecia não ter mais nada a mostrar.


A noção de sucesso interfere diretamente na forma como planejamos nossa carreira, nossa família e nossa vida em geral. Fazer um reexame periódico é fundamental!

Mas, dotado da ousadia que Deus me deu, acreditei na veracidade da afirmação do aluno. Silenciei dessa vez toda a sala, e solicitei, com cuidado que o aluno explicasse para todos porque considerava seu pai uma pessoa de sucesso. Com certa dificuldade, mas ainda com uma ponta de orgulho e com os olhos marejados, disse ele então:

“Meu pai é uma pessoa de sucesso, porque quando ainda éramos pequenos – somos seis irmãos – minha mãe abandou a ele e a nós também. E ele criou todos nós! Sozinho... Não quis se casar novamente, entendendo que seus filhos eram sua obrigação. E vive afirmando com orgulho que não perdeu nenhum. Ninguém marginal, drogado, bandido... todos trabalhadores e honestos.” Nenhum se formou, continuou o aluno, mas eu serei o primeiro a dar essa alegria a ele, que sou o mais novo. “Por isso, eu acho que meu pai é uma pessoa de sucesso”.


Pessoa de sucesso é aquela que supera suas próprias adversidades, e que não acredita quando lhe dizem: "não vai dar, é muito difícil, é impossível, você não consegue".

Novamente fez-se um silêncio, mas dessa vez foram os outros alunos que silenciaram. O constrangimento diante de tal explicação era nítido. Pois o aluno, inintencionalmente “esfregou no nariz” dos colegas a diferença entre critérios de sucesso: o critério que havia herdado de seu pai foi o de superação das adversidades. Pessoa de sucesso é aquela que supera suas próprias adversidades, e que não acredita quando lhe dizem: não vai dar, é muito difícil, é impossível, você não consegue.


Em função da necessidade de distinguir os critérios de sucesso e de estabelece-los em uma base própria, tenho desafiado constantemente meus alunos a encontrarem suas limitações pessoais, ou mesmo contextuais. E a desafiá-las. A se esforçarem para obter o melhor possível de si mesmos, não sem o desenvolvimento da crítica necessária ao mundo em que estamos inseridos. Mas, justamente, a não se conformarem àquilo que estão obtendo ou percebendo. Uma pessoa bem sucedida é aquela capaz de identificar e superar suas limitações pessoais, sejam elas claramente perceptíveis, ou camufladas nas incontáveis artimanhas que as organizações sociais constroem.


Defina seu sucesso

A partir dessa experiência, posso afirmar que, aquilo que é estabelecido socialmente como critério de sucesso camufla as incontáveis experiências de sucesso que as também incontáveis pessoas vêem tendo pelo mundo; a despeito do quão possa, esse mesmo mundo, incentivar a ascensão social, ao mesmo tempo em que cruelmente cria as condições de impedimento de ascensão.


No entanto, gostaria de ressaltar, o processo de superação de adversidades, intrínsecas ou extrínsecas é o patamar de ascensão a uma vida digna e à qualidade de vida, nos moldes em que citei acima. Nesse sentido, a superação se dará sempre com o autoconhecimento, o autoexame, a aceitação das condições encontradas para, nesse mesmo ato, produzir o processo de mudança que levará também ao reconhecimento. Não a fama, como se quer fazer pensar, mas o reconhecimento que, ao exemplo do aluno que cita o pai em sala de aula, nos fez, anonimamente re conhecê-lo e entender que ali estava uma pessoa de sucesso.


Se esses aspectos são considerados, com certeza o sucesso profissional não será o elemento impeditivo, embora, com certeza a carreira de cuidados e orientações constantes, de maneira análoga ao que se faz no nível pessoal.


*Silverio Karwowski é psicólogo e gestalterapeuta. Atualmente dirige o IGC - Instituto Gestalt do Ceará e coordena o Curso de Psicologia da Faculdade Ari de Sá.



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