• Thompson Hoger Pinheiro Silva

Os Anormais

Uma abordagem do pensamento de Michel Foucault e apontamentos sobre o nascimento da Modernidade, Corpo, Sexualidade e surgimento do Saber Médico.

Michel Foucault, psicólogo e sociólogo francês do século vinte, que herdou o título o Grande Mestre Francês que em outra hora, fora de Jean Paul Sartre, faz um arco em toda sua história escrevendo sobre a História da Loucura, a Condição de Moralidade da Normalidade e Anormalidade, o Poder, a Discursividade e a Sexualidade, A Verdade e as Práticas Jurídicas para então, em sua maturidade teórica, descrever as Práticas de Produção da Subjetividade.


O presente ensaio toma como base uma aula do curso Os Anormais ministrado no College de France no ano de mil novecentos e setenta e cinco, portanto a última fase do pensamento do mestre francês. Então, há toda uma discussão que trata da mudança de Paradigma do Saber Medieval para o Saber Moderno, contemplados os discursos sobre o corpo, a sexualidade, a moral e a ascensão da cientificidade através do Saber Médico.


“’Para onde foi Deus?’, gritou ele, já lhes direi! Nós o matamos- vocês e eu. Somos todos assassinos!”

Para onde foi Deus?

O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, já lhes direi! Nós o matamos- vocês e eu. Somos todos assassinos! (NIETZSCHE, 2002, pag.147).

Na seção cento e vinte e cinco de A Gaia a Ciência, nomeada O Louco, Nietzsche proclama um de seus pensamentos mais impactantes, a Morte de Deus. Apesar de sua aparente significação teológica, essa passagem descreve o momento em que o discurso da religião, especificamente da moral cristã, foi superado pelo discurso de uma outra forma de conhecimento, a Ciência.


Esses ideais de mudanças, rupturas, progresso e inovação, e até mesmo de revolução surdem e se desenvolvem no início do período que, na história da filosofia, convencionalmente conhecemos como “moderno” i.e., os sécs. XVIII- XIX (MARCONDES, 2007, pag.141). Assim a Modernidade marca a ascensão do Conhecimento Cientifico, como descrito por Kant em seu conceito de Juízo Sintético a Priore, ou seja, o conhecimento é produzido pelo homem graças a Razão. A partir do século dezoito até a segunda metade do século vinte, o saber é marcado pela racionalidade, valorização da cientificidade e ideia de progresso, a crença na produção de um futuro melhor. Estas considerações tentam contextualizar o pensamento foucaultiano sobre o desenvolvimento da teoria do conhecimento no ocidente.


Nasce o discurso médico-científico

Pois bem, na aula de 26 de fevereiro de 1975 de seu curso no College de France, que naquele ano foi intitulado Os Anormais, Michel Foucault descreve de como o fenômeno da convulsão acaba por ser um fator limítrofe na passagem do discurso religioso da possessão para o discurso científico e médico do nascimento da Neurologia e Saúde Mental.

Neste texto o mestre francês descreve formas de lidar com o corpo e a discursividade que acontecem entre o século dezesseis ao século dezoito. Para caracterizar a desqualificação do corpo como carne e sua culpabilização, inicia fazendo uma diferenciação entre a feitiçaria e a possessão até que convulsão indica os limites do poder religioso e sucumbe a nova forma de saber e poder, a Medicina.


A feitiçaria era um fenômeno periférico, acontecia afastado dos grandes centros, nos lugares pouco acessíveis nos quais a colonização católica não operou em sua totalidade. A feiticeira era a mulher que consagrava uma aliança com o Mal, o Pacto. Então esta personagem entregava seu corpo e sua alma ao Diabo, em uma das suas múltiplas formas de aparição, em troca de que essa entidade mística cedesse a manifestação de seus poderes quando a contratante o evocasse. Então a feiticeira era uma mulher envolvida em rituais pagãos que consentia o uso de seu corpo através de um contrato selado através da sexualidade. A perseguição a estas figuras acontecia com violência pela Igreja, através da tortura nos tribunais da Santa Inquisição. Tais relatos são do Século Dezesseis.


“Então a feiticeira era uma mulher envolvida em rituais pagãos que consentia o uso de seu corpo através de um contrato selado através da sexualidade.”

No Século Dezessete, acontece os relatos de outro fenômeno, a Possessão. Esta acontece nos grandes centros, especificamente dentro das instituições religiosas, dentro da Igreja Católica, nos seus conventos de diferentes ordens. A mulher em questão não é pagã, agora são pessoas religiosas. A relação com o corpo também é completamente diferente, a possessão não é consentida o corpo da religiosa é o lugar onde acontece a luta entre Satã e a autoridade eclesiástica que procede com a Direção da Consciência, prática extremamente complexa de combate a possessão. O corpo é um território que foi invadido e não concedido como o da feiticeira. Enquanto no ritual de paganismo havia a demarcação do Pacto, na Possessão há uma insidiosa tomada através de apelos sutis aos desejos da carne, a sexualidade é despertada por aromas como os de rosas. Existe uma luta pela alma desta religiosa que diz não estar em completo transe e que em alguns momentos cede aos apelos do prazer, sendo que a peleja alterna com vitórias do religioso que conduz o procedimento de exame e das forças demoníacas.


Foucault, vai se valer especificamente do episódio de Possessão das Freiras Ursulinas da cidade de Loudun em mil seiscentos e trinta e quatro para descrever de como a Igreja tornou-se incapaz de sustentar seu discurso, da Moral Religiosa, e foi obrigada a assistir a Medicina assumir como a discursividade em predomínio do poder. Foi na medida em que herdou esse domínio da carne, recortado e organizado pelo poder eclesiástico, foi na medida que se tornou, a pedido da própria igreja, herdeira ou herdeira parcial, foi que a medicina pôde começar a se tornar um controle higiênico e com pretensões cientificas da sexualidade (Foucault,2002,pag.282).


O Novo Exame ou Direção da Consciência com suas rígidas normas de exposição da verdade apenas na confissão e para a autoridade eclesiástica no comando do processo, mesmo tendo se sofisticado com a criação de uma série de normas estilísticas para condução dos interrogatórios, falhou perante a manifestação mais contundente da possessão, a convulsão.


No episódio de Loudun, derrotada e desnorteada após o fracasso de seus métodos mais sofisticados, a Instituição Católica viu se obrigada a recorrer as formas mais cruas e violentas com as quais lidava até o século anterior com a Feitiçaria. Acusou o vigário Urbain Grandier de ser o feiticeiro, assim autorizando-se a lançar os procedimentos da Inquisição sobre o padre, que foi sacrificado em decorrência de sua culpa pelo pacto com o Mal.

Restaria enfim um terceiro anticonvulsivo. O primeiro era a passagem da regra do discurso exaustivo a uma estilística do discurso reservado; o segundo era a transmissão da convulsão mesma ao poder médico. O terceiro anticonvulsivo, de que lhes falarei da próxima vez, é o seguinte: o apoio que o poder eclesiástico procurou nos sistemas disciplinares e educacionais (Foucault, 2002, pag. 286).


Nesta citação Foucault mostra o caminho da passagem do poder eclesiástico a nova forma de saber e poder da ciência na forma de medicina. Os anticonvulsivos eram dispositivos criados pela Igreja para resguardar-se de novos enfrentamentos da convulsão, que deixou a antiga instituição fundada por Pedro sem respostas e sem instrumentos de manutenção de status quo que preservasse sua autoridade.


No século dezenove, a Medicina firma definitivamente seu discurso neurológico de questões psicológicas, com figuras como Charcot que será uma das inspirações para Freud e os múltiplos discursos do século vinte e vinte um.

A Igreja ainda tenta através de instituições de ensino, do fundamental às pós-graduações, ainda resguardar um mínimo de sua influência, muito mais tímida que nos tempos das possessões de Loudun.


Bibliografia

Foucault, M. (2002) Os Anormais. São Paulo: Martins Fontes

Marcondes, D. (2007) Iniciação à Historia da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar

Nietzsche, F. (2002) A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia da Letras.


Thompson Hoger Pinheiro Silva é Psicólogo, Gestalt- Terapeuta, Professor do IGC - Instituto Gestalt do Ceará e Mestrando em Psicologia pela Universidade de Fortaleza.




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